EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO
Celia, 49 anos de felicidade. Não sei viver sem ela

domingo, 22 de março de 2015

Em algum lugar do meu passado.



Em algum lugar do meu passado.

Tempos de desemprego, a procura de um lugar ao sol, uma pequena aventura em uma Usina Siderúrgica que me serviu como um aprendizado para a vida.

                 Não dá para esquecer, depois de meses a procura de um emprego arrumei um. Deram-me uma passagem e cinquenta reais para chegar lá e viver os primeiros trinta dias antes do primeiro pagamento. A viagem de trem foi simples. Desci na Estação da Usiminas e na plataforma com minha mala de lado e uma blusa amarrada ao pescoço olhei em volta. O trem que me trouxera já partira e poucas pessoas ainda se encontravam ali. Acredito que só funcionários e alguns transeuntes. Eu não esperava ninguém. Pensei qual o rumo a tomar. Corria o ano de 1961. Pela saída do prédio da estação e pelas laterais, via uma estrada bem movimentada sem asfalto e cada veículo que passava deixava uma nuvem de poeira.  Atrás da estrada só o verde amarelado dos morros e nada mais podia avistar além deles. Não havia casas, prédios ou algum similar. Só a estação. Um calor de 35’ graus ajudava há melhorar o dia.

                 Virando para o outro lado, uma visão fantástica. Muito movimento, prédios, galpões, pessoas indo e vindo, carros em grandes avenidas asfaltadas, locomotivas pequenas indo para lá e para cá. Uma cerca corria paralela até onde se podia enxergar. Uns quatrocentos metros à frente, uma portaria cuja identificação não pude fazer na hora. Era o maior complexo siderúrgico que tinha visto. Trabalhar ali seria um grande desafio. Do nada que conheci no passado, pois ali era criação de gado agora surgia uma das maiores usinas siderurgicas do Brasil estava surgindo do nada. Diziam que seria a maior produtora de chapas de aço do mundo e outros produtos importantes. Desempregado e agora empregado. Na capital do estado a vida do desempregado não era nada fácil. Morava com meus pais e duas irmãs que trabalhavam. Eu não queria ser um peso morto. A única oportunidade deu em nada. Vendas no interior. Viajei por algumas cidades. Quase fui morto por causa de um colega. Demiti-me. Um verdadeiro fracasso em termos de emprego.

                   Por um jornal vi que um escritório local estava admitindo jovens para trabalhar no interior, em uma usina siderúrgica e eu me enquadrava na solicitação. Fui aceito, me deram uma quantia em dinheiro (muito pouco) e disseram que eu tinha de apresentar em quarenta e oito horas na usina. Mal tive tempo de preparar minha tralha e partir na mesma noite de trem. E ali estava eu. No meio do nada, perdido sem saber aonde ir. Tomei iniciativa e perguntando fiquei sabendo para onde me dirigir. Coloquei minha mala nas costas, enfrentei a estrada poeirenta por 3 quilômetros e encontrei o tal escritório Central. Um prédio de madeira perdido no meio do nada. Bem diferente do que se vê hoje. A pujança do concreto e o surgimento de uma cidade de mais de duzentos e oitenta mil habitantes. Ninguém sabia que em Ipatinga antiga estação o arraial não passava de mil ou dois mil moradores. Bem agora era enfrentar o meu destino. Apresentei os documentos me “ficharam” e deram o endereço onde ia morar e o setor onde deveria me apresentar no dia seguinte. Recebi também uns tíquetes para refeições.

                     Vi-me de novo a pé, na beira da estrada, a poeira fazendo uso de sua valentia. Por informação onde devia ir, era mais de 6 quilômetros. Não havia ainda ônibus. Explicou-me que os alojamentos ficavam proximo ao bairro Carandiru, e lá só moravam os privilegiados do poder na usina. Andei mais seis quilômetros na poeira dos sonhos. Assim a apelidei, pois se tornou minha amiga ali naquele mundo perdido de Deus. O vigilante responsável me conduziu a um quarto de madeira, com três beliches. Se eu não fosse um Escoteiro teria dado a volta e esquecido daquele emprego. O inicio, o que aconteceu naquele dia e na primeira semana fica para outra vez. Para dizer a verdade uma epopéia. Não era um novato. Já tivera uma experiência em uma construtora dois anos atrás, que me colocou em situações interessantes para quem quer aprender a enfrentar a vida pelo seu lado mais difícil.

               O tempo passou e dois anos depois me casei. Morava em um arraial proximo a cidade de Coronel Fabriciano. Minha condução era um caminhão FENEME lonado. (Uma marca que deu início a grandes montadoras nacionais – FNM). Cem a cento e vinte homens embolados na carroceria, espremidos, alguns dormindo sobre os outros. Uma viagem de quase duas horas para ir e outro tanto para voltar. Com mais oito de trabalho, não era nada fácil enfrentar aqueles horários curtos e longos. Turno de 8 as 16, de 16 as 24 e de 24 às 08 horas. Há tempos notava que o corpo de vigilantes da usina não era de brincadeira. Trabalhavam ali mais de dezoito mil operários (a maioria peões de obra). Falava-se na “Radio Pião” que existia na sala deles, um porão onde ensinavam os funcionários mais indisciplinados a cumprir suas ordens. Diziam ainda que muitas mortes ali aconteciam. Claro, a “Radio Pião” era nosso único contato dos segredos que se passavam na alta cúpula da Usina.

                    Não dava muito crédito, pois sempre fui uma pessoa cumpridora dos meus deveres e nunca tive qualquer altercação com eles. Talvez minha disciplina tenha pecado pelo meu futuro lá. Mas isto é outra história. Um dia, ao chegar ao portão 4 para trabalhar, vi uma imensidão de peões, funcionários aglomerados na entrada e gritos de ordem mostrava que uma revolta estava para acontecer. Ninguém podia entrar ou sair. Na entrada um almoxarifado enorme espalhava caixas e caixas de materiais importados para a construção da Usina. Não entendi a principio, mas depois vi que era uma revolta geral, pelos maus tratos do corpo de vigilantes da Usina. Com medo, os vigilantes e a diretoria da usina pediram reforço policial. Naquela época eram poucos. Um caminhão sem lona chegou com uns vinte policiais. Em cima da carroceria avistei uma metralhadora ponto 30 armada. Eu conhecia quando servi o exército. Quem conhece sabe como é. Fiquei muito preocupado. Eu sabia do estrago que ela poderia fazer. Vi que o policial tremia de medo e era uma questão de horas para puxar o gatilho.

                       Durante umas duas horas a turba engrossou. Os piões gritavam. Pedras eram jogadas. Muitos falavam palavrões aos soldados e os vigilantes. Não apareceu nenhum diretor ou autoridade para dialogar. Reforços eu sabia que não tinha, pois naquela época o numero de policiais era pequeno. Olhe, foi à conta. O que eu temia aconteceu. O policial que manejava a metralhadora abriu fogo. Foi um desespero. Uma multidão corria como o estouro de uma boiada. Larguei minha bicicleta comprada com tanta dificuldade e me escondi atrás de uma grande caixa de madeira. Ali fiquei tremendo e vi que alguns peões escondidos atiravam nos policiais. Depois do tumulto nem sinal da minha bicicleta. Uma hora de tiros e acabou a bagunça. Vi mais de oitenta peões ensanguentados, alguns deitados outros em pé muitos mortos ou feridos. Estava assustado. Minha bicicleta nova, comprada em cinco prestações eu perdi. Não sabia se entre os mortos tinha amigos meus. Nesta hora minha preocupação era voltar a minha casa. Não tinha idéia do que estava acontecendo. Voltei a pé, pois nem caminhões de transporte existiam naquela hora.

                      Foram três dias de distúrbios. Chegaram mais policiais das cidades vizinhas. Um trem lotado chegou no segundo dia vindo de Governador Valadares onde havia o Sexto Batalhão da Policia Militar. O quebra-quebra foi sessando. Cansados, os peões incitadores foram para suas casas. Eu fiquei em casa todo o tempo. Só voltei quando soube que todos os vigilantes foram demitidos e a guarda extinta. Um carro de som convocava todos para o retorno ao trabalho. Disseram depois que só oito peões tinham morrido. Não acreditei. Vi com meus olhos mais de cem pessoas sangrando e gemendo, outro tanto sem movimento nenhum. Mas como não tínhamos a presença da imprensa e nenhuma emissora existia ainda naquela época, ficou o dito pelo não dito.

                      Dizem que há males que vem para o bem. Criaram uma nova guarda com funcionários da usina, curso ginasial e assim foram tentando melhores as relações entre um e outro. Era difícil. Mas conseguiram o intento nos próximos nove meses. Soube que pagavam bem a quem se interessasse ser da guarda da usina por um período. Pedi ao meu Chefe uma transferência e ele aprovou. Acho que tinha ordens para não dificultar. Fazia horas extras a vontade. Era o que eu precisava. Noivo com casamento marcado nada melhor para poder comprar meus móveis e um terno. Ali fiquei por bom tempo. Casei me mudei para mais perto da usina e um dia me demitiram. Era esperado. Uma empresa de consultoria tinha sido contratada e ao contrário do pensamento japonês, que achava que precisava de cinco para o trabalho de um. Bem ela não pensou assim.


                    Um dia conto a minha saga da demissão da Usina. Foi realmente uma luta que nunca mais esqueci. Sei que lá deixei bons amigos e um homem ficou gravado em meu coração pela sua bondade e foi o único que me deu a mão na hora difícil. Anos depois dos amigos nunca tive notícias. Fui embora com o coração partido. Eu amava meu emprego. Fiquei quase quatro anos lá. Hoje quando passo de trem por lá me recordo de tudo. Tudo muda tudo que acontece em nossas vidas tem uma razão de ser. Guardo boas lembranças. Do caminhão lonado, da poeira, até dos amigos do passado estão firmes na lembrança. Amigos que nunca foram tão amigos. Gostaria de saber do João “Bunda”. Um homem que merece todas as honras e recordações e que mesmo não sendo o meu maior amigo, superou a todos pela sua honestidade. Para ele eu tiro meu chapéu.

sábado, 7 de março de 2015

Da vida nada se leva.


Da vida nada se leva.

                  Tem fatos que acontecem em nossas vidas e que por mais procurarmos uma explicação não encontramos. Fatos da vida fatos da morte, fatos de sonhos e fatos de planos futuros. Eu tenho muitos fatos para cortar, eles vieram sem eu pedir. Apareceram em minha vida como se tudo já estivesse escrito e eu não tivesse escolha. Boa parte da minha vida fui empregado. Fui apontador de horas, Escriturário, Datilógrafo, Auxiliar Técnico, Técnico em Alto Forno, encarregado, gerente e Chefe de Administração. Nomes pomposos, mas que me deram uma lição de vida. Cada um deles. Alguns eu pedi demissão e outros fui demitido. Não sei se fui pacato, se fui disciplinado, mas se não fui eu tentei ser. Olhem, é dureza uma demissão. Dói, machuca muito. Você acha que está preparado, mas não está. Ela chega de várias maneiras. Não tive a sorte de uma demissão feita harmoniosamente educadamente ou com amor nas palavras. Bem sei que elas não existem. Não vou aqui contar cada uma delas, acho que não vale a pena. Mas o que dizer de uma demissão que fui avisado por um cartão de ponto? Empregado na chapeira, demitido fora da chapeira.

                  As demissões não foram privilégios meus. Muitos passam por isto. Sei que é um baque muito grande na vida de cada um principalmente devido à idade avançada e família para criar. No ultimo emprego fui demitido com 49 anos e sabia de antemão que conseguir outro não seria fácil. Estava na mesma empresa uma multinacional há mais de 14 anos. Nela mesmo fui empregado por 9 anos em Minas Gerais. Entrar em detalhes de como foi não vale a pena, só sei que cheguei a minha casa e ao contar para a minha esposa ficamos os dois chorando por horas sem nada dizer. Reclamar, desistir nunca foi do meu feitio. Rodei meio mundo a procura de outro. Nada. Competia com jovens universitários na flor da idade e sabia que não importava a experiência e os conhecimentos. Para eles eu já era um Velho.

                  Cinco meses depois tomei uma atitude. Não iria conseguir mesmo um emprego. Precisava montar um negócio para mim. Minha indenização não ia durar muito tempo. Passei um mês analisando qual seria. Fiz pesquisa de mercado e vi que vender tubos de aço que eu conhecia bem não iria dar resultados. Um dia assistindo um filme na TV pensei: - Ora, entendo muito de cinema, por que não abrir uma loja de Vídeos? Mãos a obra. Aluguei uma saleta pequena de não mais que 8 metros quadrados. Comprei filmes na época VHS. Tinha jeito com clientes e eles sempre me procuravam para sugerir filmes bons. O tempo foi passado e minha saleta não cabia mais os filmes. A clientela aumentando. Fins de semana não cabiam ninguém em determinadas horas. Parti para um salão maior, quase 80 metros quadrados. Cresci. Em pouco tempo estava com mais de 6.000 títulos. Vizinho ao meu salão desocupou outro. Mais de 350 metros quadrados. Meu filho me incentivou. Alugamos e nos tornamos a maior locadora do bairro. Cheguei a ter neste salão mais de 12.000 títulos em VHS e 8 funcionárias. Crescia a olhos vistos. Eu e meu filho resolvemos abrir uma filial. Já éramos uma potencia em vídeo na nossa região.

                 Chegou o DVD. A coisa complicou. O faturamento ia todo para a compra de discos e o VHS tinha de continuar. Mas ele foi definhando. Empenhava tudo no DVD. Mil dois mil cinco mil títulos. Muitos com seis a dez cópias. A procura era imensa. Não economizava. Tirava uma parte para minhas despesas pessoais e o saldo ia todo na compra de filmes, prateleiras, marketing e funcionárias. Acreditava que meu estoque era minha garantia para o futuro. Um dia alguém me procurou e disse estar interessado na compra da Vídeo Locadora. Ofereceu-me duzentos mil reais. Sorri e disse não. Até hoje fico pensando que o futuro a Deus pertence. Alugava em média quinze mil títulos por mês. Uma fortuna, mas toda ela investida no próprio negócio. Então a pirataria me pegou de chofre. Senti na pele  a queda. Principalmente quando o nosso Presidente (Lula) disse que nas viagens ele sempre levava um DVD e filmes piratas. Ele dizia que os outros também precisavam ganhar seu rico dinheirinho. Grande Presidente.

                 Os preços do DVD estavam nas alturas. As multinacionais americanas descobriram no Brasil a galinha dos ovos de ouro. Vendiam na Argentina um DVD por vinte dólares e no Brasil por sessenta dólares. Ótimo negócio. Para eles. Os cartuchos de Vídeo Game passavam de trezentos reais. Ninguém destas multinacionais viram que estavam matando a galinha dos ovos de ouro. Dito e feito. Dois anos depois em um mês meu faturamento caiu cinquenta por cento. Comecei a ficar preocupado para não dizer desesperado. Afinal tinha centenas de boletos a pagar e não podia deixar de comprar os lançamentos. A cada mês mais e mais o faturamento caia. Investi o que não tinha em uma Lan Rouse. Em uma loja coloquei vinte computadores e em outra mais dez. Deu para segurar um pouco, mas eu sabia que não tinha futuro.  O cabo de sinal de internet corria meu bairro e muitos já tinham sua Banda Larga em sua residência.


                Final da história. Quebrei. Quebrei bonito. Devendo a bancos, a multinacionais de filmes, as revendas e não tinha onde tirar. Coloquei tudo que tinha a venda. O que consegui mal cobriu os vinte e cinco mil reais. Nem deu para pagar sessenta por cento do que devia. Para quem teve uma oferta de duzentos mil era para rir ou chorar. Fechei tudo. Era só prejuízo. Ferrei-me bonito. A pirataria tomou conta. Acabou com tudo. Locadoras passaram a ser peças de museu. A gigante Blokbuster se foi. Fechou em todo o mundo. A Lan Rouse era um nada em meu faturamento. Nem pagar o aluguel dava. Tinha uma aposentadoria de dois salários. Como viver? Meus filhos se cotizaram e até hoje fazem isto. Sem eles não teria nada. Graças a eles eu me vejo na condição de alguém que não tem nada, mas tem uma casa alugada, não falta o trivial, e mesmo não tenho mais nada eu acho que tive o que mereci. Há mais de dez anos que descobri ter um Efisema Pulmonar. Sem cura, mas que com remédios certos vou podendo sobreviver. Ando sofregamente, faço inalações varias vezes ao dia. Consegui ter os remédios mais custosos custeado pelo Estado. Pois é, a vida é assim mesmo, como diz a nossa oração Escoteira, uns tem e não podem, outros podem e não tem, nós que temos e podemos agradecemos ao Senhor. De qualquer maneira sou feliz. Afinal quem tem uma linda esposa e lindos filhos quer mais o que?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Arroz com feijão é bom demais!


Arroz com feijão é bom demais!

            Eu sempre gostei de arroz com feijão. Feijão preto é claro. Minha mãe era batuta para fazer feijões de todos os tipos. Era cortado, inteiro, com farinha, com linguiças da roça e um dia ela nos serviu uma sopa de feijão que entrou para a história. E o arroz? Soltinho, sempre deixava no fundo da panela uma rapa que eu adorava. Depois casei, descobri que a Célia era supimpa na cozinha. Seu feijão e seu arroz eram e ainda é inigualável. Eu tive duas fases na vida que nunca esqueci. A primeira foi quando casei e trabalhava na Usiminas em Minas Gerais. Ainda morava em Melo Viana, um distrito de Coronel Fabriciano. Era divertido, pegávamos um caminhão lonado e viajávamos mais de 40 quilômetros até a usina. Ida e volta, na carroceria mais de 100 peões. Um belo dia o Francisco que também morava em Melo Viana e como nós pagava aluguel disse que tinha um plano. Mais dois vieram se juntar a ele. – Vamos invadir um Galpão de uma Empreiteira na Candagolândia (um bairro de Ipatinga, próximo a Usina). Já verifiquei um galpão tem oito quartos e fica dois para cada um. Usamos os banheiros e tanques em conjunto.

                         Dito e feito. À noite juntamos nossos trapos, alugamos um caminhão que serviu para os quatro e partimos. Trabalhamos a noite toda para abrir uma porta de um quarto ao outro. Foi divertido. Durante um mês ninguém foi lá reclamar. Dois meses depois apareceu o fiscal. Sujeito valente, ameaçou, disse que ia chamar a policia e coisa e tal. Não chamou e continuamos lá. Um belo dia apareceu um funcionário da usina. Ofereceu-nos algumas casas na própria Candangolândia. Casas simples de dois cômodos. O telhado de amianto quase nos fez desistir, afinal trabalhávamos de turno e precisávamos dormir de dia. O vale do Aço tem temperatura média de 40 graus. Eu não discuti. Aceitei os outros não. Tanto ficaram que pegaram casas melhores. Paciência. Sabe o que eu gostava da Candangolandia? Era proximo ao rio Piracicaba. Lá eu podia nadar e pescar. Os vizinhos pacatos, gente boa mesmo tendo que dividir um banheiro e um tanque com quatro.

                         Nunca esqueci a Célia me dizendo: - Osvaldo não temos carne. Só feijão e farinha. Vê se pesca uns lambaris no Rio Piracicaba. Lá ia eu com minha varinha e minha bicicleta. Já conhecia os pesqueiros. Sentava e em menos de vinte minutos uma fieira com mais de 50 Lambaris Bocarra. Compridos, fritos uma delicia. Eu não tinha um ótimo salário. As compras eram feitas na Cooperativa da Usina. Cada um de nós só podia comprar vinte por cento do salário. Assim as compras só uma vez por mês. Minha casa tinha uma mesa, quatro cadeiras, um fogão a gás, uma prateleira de vidro, uma cama e um guarda roupa. Eu tinha também um rádio Philips e em ondas curtas podia ouvir rádios distantes. Eu gostava daquela vida, o Jan meu filho mais Velho já tinha um ano e seu sorriso era encantador. Depois vieram as dificuldades que já contei por aqui. A segunda foi quando fui convidado para ser o Gerente de uma Fazenda no Norte de Minas. Uma outra vida. Gado que sumia de vista nas largas e na beira do Rio das Velhas. Com um barco a motor que tínhamos era coisa de vinte minutos até o São Francisco.

                       Lá as histórias são muitas, mas aqui só vou contar à fartura que tivemos. Celia tinha uma bela horta. Enorme. Antonio Preto ajudava três vezes por semana. Eu dava a ele uma paga razoável. Tinha de tudo. E o galinheiro? Tantas galinhas que diariamente a Célia colhia mais de quatro dúzias de ovos. Amigos em Pirapora se deliciávamos quando chegávamos. Não esquecer o chiqueirinho. Sempre quatro capados engordando. A cada três meses o Seu Manezinho vinha para matar um. Um fogão feito de barro, três tachos enormes, carne à vontade. Célia fritava e colocava em latas de vinte litros com gordura de porco. Uma delicia para comer, era só tirar fritar e se deliciar. Linguiças? Tantas que em cima do fogão na área externa da minha casa quase não cabia. Eram sim linguiças de porco legítimas não essas de hoje. Não esquecer os choriços. Deus do céu! Me dá água na boca só em pensar.

                        Mas não era só isto não, eu vendia de três a quatro vacas mais velhas para açougueiros da região. Eles faziam questão de quando iam embora (eles mesmo matavam e desossavam) trazer um bom bocado de um cupim, de um filé mignon. Enfim era só dizer qual carne e eles traziam. A geladeira não era grande, era a gás, e eu não aceitava tudo que me davam. E os peixes? A lagoa que nas cheias o Rio das Velhas jorrava por dias, era farta em piaus, corvina, belos dourados, grandes surubins. A Célia me chamava e dizia: - Osvaldo, vamos comer um peixe? Traga um dourado, mas pequeno. Não mais que dois quilos! Lá ia eu com minha linhada, um pedaço de carne e meia hora depois estava de volta com o peixe encomendado. Hoje? Bem sempre tenho uma carne na geladeira. Congelada, nada fresco. Nem se compara aqueles lambaris fritos que nunca mais comi. Nem se compara com um filé, um cupim, carne de porco a escolher, linguiças, e choriços. Ah! Eu adoro choriços.  


                          O tempo ficou no passado, mas sempre é bom lembrar. Eu e Célia nos divertimos muito quando as tardes sentamos em nossa varanda e começamos a falar das coisas boas da vida, dos sofrimentos, das mudanças de residência, do escotismo e de tantas coisas. Mas as carnes e os peixes a gente não esquece nunca!     

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

As flores lindas da primavera voltaram. (Baseado em fatos reais).



As flores lindas da primavera voltaram.
(Baseado em fatos reais).

               Lembranças nem sempre nos trazem o perfume das flores singelas que desabrocham na primavera. O que acontece conosco sabemos que nem sempre é um mar de rosas e as dificuldades acontecem porque estão definidas em nossa vida. Estou a contar fatos que aconteceram, e mesmo amargos na época, ainda nos trás uma pontinha de saudade. Vou voltar no tempo. 1961/65. Eu era feliz. Recém-casado já com meu primeiro filho vivia no corre, corre em cima de uma bicicleta que me levava de casa para o trabalho e o escotismo. Trabalhava em turno. Usiminas. Grande siderúrgica. Milhares de peões como eu. Um formigueiro humano de gente saindo e outros entrando. Eu gostava de trabalhar ali. Nos meus vinte e três anos eu era muito feliz. Planos eram poucos. Ter mais um ou dois filhos e ser feliz como sempre fui. Sempre gostei de trabalhar. Fiz muitos amigos. Mesmo no horário de meia noite as oito da manhã eu ainda sorria ao retornar para meu lar. Nunca lamentei. Não era rico, mas dava para viver. Quando não tinha carne na mesa tinha peixe. Era só ir pescar no Rio Piracicaba um rio pequeno, mas piscoso. Bem ao lado de minha casa.

                 Tantas coisas aconteceram ali. A morte de dezenas de peões pelas autoridades policiais da época, fatos escondidos na imprensa, tudo por que a Segurança da Usina se tornou uma KGB. Outra história para contar no futuro. A vida não parava. Veio uma epidemia de sarna, meus braços e pernas ficaram em carne viva. Em 1964 a gente via os vários trens lotados de prisioneiros levados para Belo Horizonte no DOPS. Quantos suplícios e covardia aconteceram com eles.  Não era um estudante e nem um leitor assíduo dos fatos, portanto não liguei muito pelo acontecido. Minha vida agora era proteger minha família e trabalhar. Eu sonhava com um futuro, sonho simples. Nada de riqueza e grandes conquistas. Era um homem feliz e trabalhando na “boca do forno” nunca reclamei. Eu gostava dali, dos meus amigos e nas folgas quando me encontrava com meus meninos Escoteiros. Nunca faltei e nunca cheguei atrasado. Um dia soube que ela estava chegando. A Rádio Peão já tinha anunciado em manchetes. A Temida Booz Allen Hamilton iria dar seu veredito de quem fica e quem sai. Sua fama já era conhecida no Brasil. Muitos tremiam quando viam seus engravatados espalhados pela usina. Fora contratada para fazer uma reformulação de pessoal. O medo se apossou de todos. Os idealizadores da Usina os japoneses do pós-guerra, diziam que cada tarefa precisava de cinco brasileiros para executar. Era assim no Japão. Os novos brasileiros na Diretoria achavam que não. Uma limpeza precisava ser feita e reformulação chamada na época de Organizações e Métodos pretendia demitir quarenta por cento dos funcionários. Dos onze mil pelo menos quatro mil e quinhentos iam dar adeus ao seu emprego.

                  As rodinhas de funcionários aqui e ali comentando. No meu setor cinco engravatados nos chamavam um a um. – O que você faz? Para que serve? Quem é seu Chefe? E assim as perguntas pipocavam. Um questionário temido. Quase duas horas respondendo engasgado e tremendo. A gente que vivia feliz contando piadas no forno quente para passar o tempo, agora vivia com um medo terrível. Quando eles os engravatados apareciam no alto forno um silencio sepulcral. Agora não havia mais conversa a dois. Não havia mais rodinha onde se comentava os fatos do dia. No refeitório ninguém olhava para ninguém. Chegou a hora de cada um pensar si. Demissão? Trabalhar onde? Eu mesmo sabia como foi chegar até ali. Começara tudo de novo? Onde? Eu tinha mulher e filho para sustentar. Precisava trabalhar. Minhas noites agora eram mal dormidas, pesadelos aconteciam. E então começaram as demissões tão anunciadas. Meu Deus que covardia eles usaram para demitir. Todos desciam dos caminhões que os levavam até seu setor de trabalho e uma fila se formava para bater o ponto. – Quem não encontrasse o cartão de ponto na chapeira estava demitido. Na fila uma tremedeira. Todos rezando para que seu cartão de ponto estivesse lá. Até hoje fico pensando se eles se divertiram com esta maldade. Você mal dorme, pega um caminhão lotado de peões chega ao trabalho por volta das onze e meia da noite e entra em uma fila para descobrir que seu cartão não está lá?

                Foram dois meses de agonia. O Tião foi demitido. O Waltinho e o Nonô também. Até o Marquinhos que era Mestre de forno também foi. A turma do meu departamento iam um atrás do outro. No caminhão na ida e vinda ninguém falava. Soube que a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) levantou o problema para a diretoria. O número de acidentes crescera assustadoramente. Soube pelo Raimundo que trabalhava comigo e era “Cipeiro”. – Osvaldo eles não estão nem aí. Mesmo com quatro mortos na Aciaria só este mês não resolveu. Isto sem contar outros duzentos com diversos tipos de acidentes. Ninguém da Diretoria queria dar o braço torcer que a culpa era o medo da Booz Allen e sua sanha em demitir. Porque não passar a lista dos demitidos para a chefia? Porque ela não chama um por um e comunica com mais humanidade? Não adiantou. Os acidentes duplicaram. Quem poderia trabalhar em paz se mais dia menos dia seu cartão de ponto não estaria mais na chapeira?

                Três meses de terror. Agora a “peãozada” fazia rodinha em volta da Chapeira à medida que os caminhões lotados chegavam. Acabou-se a solidariedade. Cada um por si e Deus para todos. Uma maldade por parte de amigos do passado se fez presente. Risinhos jocosos, palmas e gargalhadas quando alguém dava falta do seu cartão de ponto. A dor de ser demitido era agora aumentada pelas chacotas dos que ficaram. Eu soube como era difícil uma demissão, sem eira e nem beira, sem dinheiro e tendo que desocupar a casa da Usina para receber. Eu sabia como foi difícil para muitos chegar e avisar sua família que fora demitido. A indenização naquela época não é como hoje. Com medo das chacotas passei a descer do caminhão por último e ficar em uma esquina da Balança Ferroviária até o toque da sirene. Hora da troca do turno. Ninguém lá e eu ia bater o meu cartão rezando. Deus! Por favor! Não deixe que tenha sido escolhido! Mas não adiantou. Um dia meu cartão não estava mais lá. Meu dia chegou. Tremi. A voz embargada. Queria chorar e não consegui. Fui para o Alto Forno trabalhar com a mente sem saber o que pensar. Eles, os peões meus amigos vieram solidarizar. Sabiam que eu era o próximo da lista. Passei uma noite sinistra trabalhando ali naquela “Boca do Forno”. Minha última noite.  Não culpei ninguém, sempre disse a mim mesmo que o que tem de ser será.

               Pela manhã não me despedi de nenhum amigo. Olhos vermelhos. Deixei para pegar o caminhão de retorno na Laminação bem longe deles. Tinha medo de chorar. A turma que no ponto esperava a condução era desconhecida. Mas seus semblantes eram os mesmos. O medo de uma demissão. Celia me esperava na porta. Morávamos em uma casa simples no Bairro da Candangolândia. Casinha pequenina. Telhado de amianto. Um quarto, sala e cozinha. Banheiros no quintal. Ela chorava, já sabia quando me viu. Abracei-a também chorando. Ficamos ali sentados e abraçados em um banco que existia em frente à casa, com meu primeiro filho de um ano e meio brincando na grama do quintal. As coisas são assim. Ninguém passa pela vida sem pisar em espinhos. Duro foi sair da Usina. Só me pagariam se saísse da casa que lhes pertenciam. Uma história para ser contada em outra ocasião.


             Duas semanas depois, partimos. No pequeno Chevrolet do Seu Nestor com meus poucos apetrechos partimos. Minha mãe na capital me ofereceu um quartinho. Na estrada com o caminhão sacolejando na estrada de terra, lá na “boleia” ia eu Celia, Jan e seu Nestor. Paramos em uma vendinha para comprar pães e mortadela. Nossas refeições até chegar a minha nova morada. Dei-me ao luxo de comprar um Guaraná para meu filho, pois o dinheiro era curto. A viagem seria longa, mais de nove horas naquela boleia sacolejante.  Jan o meu filho de um ano sorria, sorriso de criança é lindo. É contagiante. Mas eu e Celia com os olhos marejados de lágrimas seguíamos pensando o que a vida nos reservaria. O que será de nós a partir de agora? Lembrei-me do que disse o Lobo Gris aos seus irmãos na Pedra do Conselho quando Mowgly partiu. – “As estrelas desmaiam, concluiu o Lobo Gris de olhos erguidos para o céu. Onde me aninharei amanhã? Porque dora em diante os caminhos são novos”! Mas isto é outra história. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A Maria fumaça e o Vale do Rio Doce, doces lembranças.


A Maria fumaça e o Vale do Rio Doce, doces lembranças.

                    Viajar de trem sempre foi uma das minhas escolhas pessoais, era como se o mundo mudasse de rumo e eu seguia em uma direção escolhida por ele. Hoje não posso mais fazer isso, mas um dia se puder, quero de novo embarcar para uma viagem que pode até ser sem volta. Não vai importar. Minha alegria irá superar tudo, pois estarei fazendo a viagem que sempre fiz e nunca esqueci. É um privilégio uma viagem de trem. São tantas coisas que dificilmente poderíamos descrever todas. Quem viaja se diverte, sonha, vê um mundo diferente. A Maria Fumaça sempre foi um dos meus amores quando jovem. Margeando um rio, com seus apitos estridentes, uma parada em uma pequena estação, alguns saltam outros sobem. O cheiro do trem ninguém esquece. As fagulhas lançadas no ar, as paradas nas caixas d’água para matar a sede da locomotiva. E os guarda-pós? Usei muitos. Não sei por que, todos brancos.

          Muitas vezes alguns funcionários da ferrovia passam despercebidos. A gente na poltrona sonhando não sabe quantos estão trabalhando para que o trem siga seu destino. Ver a estratégia do manobreiro, simplicidade do guarda-chaves alterando o percurso do trem, da destreza do maquinista, do esforço do foguista alimentando a fornalha sempre faminta, do trabalho do pessoal da soca, a fazer os reparos necessários e o do fiscal de linha garantindo a segurança da viagem. É um espetáculo A parte. A locomotiva devagar ou correndo, durante o dia apitando, um som maravilhoso que devia encantar o maquinista que gostava de puxar o cordão do apito. As paradas nas estações, a aglomeração dos que chegavam e os que partiam. Os meninos com suas “coisas” vendendo e gritando – Olha o sanduiche de galinha, olha a manga madura! Doce de leite e doce de abobora quem quer? O apito do chefe do trem, ele devagar saindo da estação, a meninada correndo.

                   À noite, as luzes dos carros de passageiros acesas, a segunda classe, a primeira classe. Um espetáculo ver o condutor do trem, com seus bigodes imensos, seu uniforme impecável, e seu boné bem colocado na cabeça, começando seu périplo em todos os vagões. Uma rotina de anos, seu inconfundível apito para anunciar a partida do trem, e agora ali depois de percorrer os vagões da frente pedia educadamente – Bilhetes! Bilhetes! E todos sorridentes, com ele a mão para ver como ele picotava e perfurava numa manobra de deixar todos os passageiros embasbacados. Eu tinha conhecido todos os tipos de trem. Para mim as que mais gostava era da “Jibóia” enorme, gigante, com varias rodas. As “baldwins” me chamavam a atenção, por ser uma Maria fumaça pequenina. Tão pequena que sua chaminé abarcava todo seu todo.

                 Com era gostoso ficar ali na janela, vendo o trem cortando montanhas, apitando, soltando fumaça, mostrando que ali em seu caminho é ele quem manda. Quem teve o privilégio de viajar em uma Maria fumaça, de primeira ou segunda classe, não esquece nunca. Vai sempre margeando um rio, caudaloso ou não, ali vai ela, seguindo o seu curso natural. Seu destino uma próxima cidade, uma arraial, um sitio, um parada no meio do caminho. O barulho e o cheiro do trem é uma experiência muito viva. Sinto saudades da Maria-fumaça. Da volta da ferradura. Do guarda-pó para nos proteger das fagulhas lançadas pela locomotiva enfurecida. Das paradas na caixa d’água para matar a sede insaciável da Maria-fumaça. Do som inconfundível do apito do condutor que anunciava a partida do trem e depois percorria os vagões de passageiros para perfurar e vender os bilhetes. Do malabarismo dos guarda-freios puxando a corda e pulando de um vagão para o outro com o trem em movimento.

               Uma vez amigo de um foguista, ele me convidou para uma viagem de uma estação a outra. Trecho pequeno, mas foi para mim uma tremenda felicidade. Ver o maquinista olhando a frente, seu apito inconfundível (ele olhava para mim e sorria). O esforço do meu amigo foguista alimentando a fornalha sempre faminta. Difícil imaginar quantos estavam envolvidos para que aquele trem percorresse seu caminho, sem perigos, e chamando a atenção de todos que moravam próximo a linha.

                  Depois, passaram-se os anos e a Maria Fumaças foram trocadas por locomotivas a Diesel. Mesmo assim, minhas viagens nunca deixaram de acontecer. Lembro que com minha família, sempre íamos para passar uns dias em Vitoria, e o trem percorrendo aqueles trechos maravilhosos, as paradas nas estações, a meninada de novo gritando e vendendo frutas, salgados, uma festa. O condutor sorrindo a dizer bem alto “Próxima estação, Aimorés!”. É uma saudade imensa. Foi uma época maravilhosa. O Rio Doce caudaloso, águas límpidas (hoje não é mais) Era também um espetáculo a parte a passagem de trem por outro em alta velocidade.

                 Hoje não tenho mais esta oportunidade de viagem. Anunciam aos quatro ventos um tal de trem bala. Acho que não vou viajar nele. Não vai me deixar ver o rio, as paisagens, a meninada com aquela algazarra na estação. Não será o trem dos meus sonhos. O que foi ficou no passado. Difícil enfrentar a modernidade. Não sei se gosto dela.

            Meus filhos e meus netos não terão oportunidade de viver o que vivi. Não tem mais Maria fumaça. Não tem mais meninos vendendo frutas e salgados. Acho que nem o condutor do trem com seu uniforme impecável e perfurar os bilhetes com maestria não mais existem. É melhor ficar só com as lembranças. Estas sim mostraram uma outro época e a de agora não é para mim. Quem sabe serão para os meus filhos e netos.


"Lá vai o trem com o menino
Lá vai à vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
P’ro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo ar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar, no ar.” 
 (O trenzinho caipira: Heitor Villa Lobos)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Coisas da vida.


Coisas da vida.

                            Cada dia que passa, mais nós vamos pensando no próximo que vai passar. Mas o amanhã é só previsível e o hoje já é uma realidade isto na medida em que o ponteiro do relógio avança e vamos esperando acontecer o que planejamos o que nem sempre dá certo. Complicado não? Eu também achei. Mas não mudei, talvez por achar que assim é o começo e o fim ainda não sei como será. Vejam se entendem com a historieta que conto abaixo. Quando casei, há muitos e muitos anos atrás, lá pelos idos de 1963, me lembrei de um fato interessante.

                          É bom os amigos saberem que não é como contam hoje os articulistas, os fazedores de historia e os artigos escritos de uma forma toda simpática, dentro de um principio de classe média, o que no meu caso não era real. Até a tal de lua de mel não existia. Ela era feita com dois dias de folga conseguidos a custo no trabalho. Não tinha jaqueta preta, não podia comprar os discos da jovem guarda (dinheiro curto), e nem freqüentar o Guarujá, descendo a serra de Santos. Mal tinha uma bicicleta de pneu balão, freqüentemente cheia com meus amigos. Um na garupa, um dirigindo e eu no quadro com uma perna em volta do guidon.
                     
                       Mas vamos lá, casei, foi um dia festivo, com muitos amigos presentes, minha sogra é quem financiou a festa realizada na residência dela. Ficamos ali conversando bebendo um pouco (nunca fui de muita bebida) esperando a noite passar. Iríamos voltar para minha cidade onde iríamos morar às cinco da manhã. A viagem seria de trem, no expresso da manhã. Quando casei, não tinha reserva financeira, não tinha casa própria e os móveis, uma cama, um guarda roupa, uma cristaleira comprei de um amigo que era marceneiro para pagar em 4 vezes. Claro que paguei. Com muito custo consegui um fogão a gás. Na época na cidade onde iria morar eles eram ainda “coisa de rico”. Geladeira? Muitos anos depois. Televisão? Risos. Quanto tempo demorou eu não me lembro.

                           Como o dinheiro estava curto, basta dizer que três dias antes, (do religioso) casamos no civil na minha cidade (minha esposa era menor de idade e sem o aval do pai desaparecido, não quiseram fazer o casamento. Assim fomos à cidade que morava, pois conhecíamos o juiz de paz) e fiz o pagamento assim:

- Meu padrinho, amigo do Juiz pegou 60 cruzeiros emprestado com ele, me emprestou e eu paguei ao mesmo Juiz o valor do casamento, ou seja, 60 cruzeiros. Entenderam? Olhem o Juiz também meu amigo ficou cismado, pois achava que conhecia algumas notas recebidas, mas deixa prá lá. Quando chegamos a minha cidade, (a viagem era curta, apenas duas horas de trem) conversei com um amigo dono de um taxi, para me levar a casa em que iríamos morar, e se ele podia receber no fim do mês. Incrível não? Vocês não viram nada ainda. Quando chegamos a casa (esta casa, também tem uma historia, mas fica para outra vez), lá encontramos alguns amigos a espera. Era sempre assim. Todos me queriam muito bem. Entramos (ainda não conhecia o costume de levar a mulher no colo para atravessar a porta e acho até que nem existia). Minha esposa fez cafezinhos, serviu e nada dos amigos irem embora, lá pelas duas da tarde, despediram e saíram. Olhei para ela, um sorrisinho maroto. E surpresa, bateram na porta. Mais quatro amigos que chegavam. Queriam conversar e parabenizar.

                     Eu cansado e a esposa também, tivemos que ser educados e durante duas horas ali permaneceram. Quando saíram já passava das sete da noite, logo chegou o pároco, alguns casais da igreja que me conheciam. Deus do céu! Ficaram até a meia noite.  Foram embora sorrindo. Que dia. Claro tinha muitos amigos, mas aquilo parecia coisa combinada. Já preparávamos para dormir e eis que surge outros amigos, cujo turno de trabalho terminava às onze horas da noite, também resolveram nos visitar! – tudo isto na noite de núpcias! Incrível não? Agüentei até duas da manhã e infelizmente fui mal educado, mandei embora o padre e os amigos. Na saída, estavam todos ali, na minha porta. Mais de vinte pessoas. Rindo batendo palmas, cantaram (alguém levou um violão). Lá pelas quatro da manhã acho que não agüentavam mais e foram para suas casas me deixando a sós com minha mulher. O cansaço era muito grande e sempre achamos que alguns deles estavam à espreita nas janelas e esperavam o ponto culminante que claro não aconteceu naquele dia.

                     Só mesmo a noite, quando voltei do trabalho pude descansar e ter com minha esposa a lua de mel que não conhecemos no primeiro dia. Sempre de olho na porta para ver se não aparecia ninguém.  É bom ter amigos. Eles fazem falta. Hoje tenho poucos. Muitos que não conheço através desta telinha do computador. Acho que eles me querem bem mesmo sem me conhecer pessoalmente. Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça deserto.


Hoje lembro com saudade de todos eles. Foram tempos bons. Uma amizade sem interesse. Não sei onde andam, e se ainda estão vivos. Mas valeu tudo que passei junto a eles. Se pudesse voltar no tempo o faria sem pestanejar. Mas o tempo não é mais nada que uma lembrança que se foi.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um cafezinho, por favor!


Um cafezinho, por favor!

                   Há muitos e muitos anos, lá pelos idos de 1959 eu viajava de trem para a cidade de Dom Silvério interior de Minas Gerais. Época que a Estrada de Ferro Leopoldina cortava quase todo o Brasil. Era um promotor de vendas, ou melhor, um reles vendedor de livros. Uma serra montanhosa ligava uma cidade à outra. Em linha reta se fazia a pé em uma hora e meia, mas de trem era cinco horas. Paramos em uma estação. Não ia descer. Os meninos gritavam tentando vender seus pasteizinhos, pão com carne, churrasco, goiaba, manga e tantas guloseimas possível. Na janela vi uma morena de olhos verdes, cabelos negros ondulantes, linda demais. Ofereceu-me cafezinho em um copo de vidro. – Só um real moço! Caramba, era linda demais. Precisava vê-la de corpo inteiro. Desci do trem. Era mestre para subir com ele andando. Ela sorriu para mim. Pensei com meus botões: - Que corpinho lindo! Quinze? Dezesseis? Por aí. – tomei um café, depois outro, brincando disse – Te dou cinco reais por um beijo! – Ela fez beicinho. O trem ia saindo. Dei um breve beijinho no rosto dela e sai correndo. Peguei o trem e pensei que seria o beijo mais lindo que tinha dado. Fui sonhando até a próxima estação.


                    O trem apitou. Encostou-se à plataforma. A garotada gritando – Goiaba, banana manga! Pão com Carne, Pastelzinho, churrasco! Olhei pela janela e lá estava ela de novo. Como? Ela voava? – Cafezinho moço? Ou um beijinho? – Surgiu na janela um garoto forte, alto com uma garrucha na mão. – Beije aqui moço! É de graça! – Nossa Senhora! O que é isto? O trem foi saindo de mansinho. Um tiro ecoou e bateu no vidro da janela do outro lado. Um túnel e uma descida. Mãe de Deus! Salvei-me desta. Um velho ao meu lado explicou que era só atravessar uma garganta, menos de cinco minutos e passava de uma estação a outra. De trem um volta enorme. Aprendi. Nunca mais comprei um beijinho viajando. O pior é que nunca fiz isto! Foi a primeira e única vez em minha vida. Beijinhos? Risos, nunca mais...