EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO
Celia, 49 anos de felicidade. Não sei viver sem ela

sábado, 24 de agosto de 2013

Ouro Negro, o magnifico manga-larga do sertão.



Ouro Negro, o magnifico manga-larga do sertão.

               A beleza de um cavalo é indiscutível. O seu porte, a crina, o pelo macio faz dele um dos animais mais queridos do homem. Sempre foi um fiel amigo e sempre presente nos mais variados momentos da história. Hoje tirei o dia para falar de um cavalo. Não um cavalo qualquer e sim de um Manga-larga marchador, uma raça que remonta a coudelaria Alter-Real e chegou ao Brasil por meio de nobre da Corte Portuguesa. Dizem os criadores que o Manga-larga é a mais bela criatura depois do homem. Aconselham que o melhor mister é criá-lo, a melhor das ocupações tratá-lo e o maior prazer montá-lo. Este introito é para dar uma ideia do que seria Ouro Negro. O conheci na fazenda que trabalhei por seis anos como Administrador. Um empreendimento enorme e quando lá cheguei de animais não entendia bulhufas.

               Meus primeiros dias de administrador foram de um aprendizado enorme. Como qualquer responsável por uma fazenda teria que ter um cavalo. Diziam que sem um eu estaria nu. Mas como escolher? Eram vários vaqueiros e cada um tinha o dele. A manada dos manga-larga era enorme. Eram intocáveis. Ordens da diretoria. Mais de trinta animais. Todos eles capitaneados por Ouro Negro. Que cavalo! Lindo mesmo. Alto, enorme e para minha infelicidade arisco e selvagem. Considerado um grande reprodutor era tratado como um rei. Manoel era o mais Velho vaqueiro de lá. Não podia dar bandeira. Sabia que sempre aproveitavam dos novos e lhe davam sempre o pior cavalo. Mais tarde fiquei sabendo que eles riam a vontade quando os visitantes ou empregados escolhiam o Pimentinha. Um cavalo ainda novo, mas preguiçoso. Dois passos parava. – Manoel não conheço cavalos, você escolhe. Se daqui a meses souber que sua escolha foi para rir de mim te coloco na rua no outro dia!

              Ele escolheu bem. Deu-me uma égua rajada com porte de rainha. Chamava-se Cristal. Eu e Cristal ficamos juntos durante meus seis anos que lá permaneci. Acho que ficamos amigos apesar de sempre me dar uma canseira pela madrugada quando ia laçar para o inicio das lides do dia. Mas eu tinha uma queda mesmo era para o Ouro Negro. Ele sempre junto a sua manada como a dizer - Aqui mando eu! Pensei até em criar junto a mim um potrinho que vi nascer e que era filho dele. Não deu certo. Jurei para mim que iria montá-lo, pois Manoel me disse que todos que tentaram caíram. O único que ficou alguns minutos sem sela foi ele. Manoel era um gozador. Vaqueiro dos bons. Magro como uma caveira. Barba enorme negra, dentes cariados, chapéu de couro a moda nordestina, perneiras e gibão de couro fazia dele um autêntico vaqueiro nordestino.

            Contaram-me várias histórias sobre os que tentaram montá-lo. Muitos nem conseguiam colocar nele a sela. O Próprio Presidente da Empresa, a quem chamavam de comandante foi ao chão por várias vezes. Aprendeu a cair caindo. Foi um desafio. Adoro desafios. Ia montar o Ouro Negro ou não era o Escoteiro que pensava ser. Bolei um plano. Ia conquista o Magnífico Ouro Negro pela barriga. Ninguém iria saber. Todos os domingos a sede da fazenda ficava vazia. A vaqueirada, os tratoristas e outros funcionários não apareciam. Eu despistava pela manhã e ia jogar a “pelada” que todos os domingos aconteciam nas terras do Seu Geraldo Velho. Era divertido. Vinha gente de toda a redondeza. Uma das poucas diversões da peãozada. No retorno almoçava cedo e ia direto ao “piquete onde era a morada de Ouro Negro”. Um bornal cheio de milho atravessado em meu ombro.

            Ouro Negro no inicio nem deu bola. Coloquei várias espigas na grama, em um galho baixo e ele passava perto e olhava para mim e saia com seu porte altivo. Demorou dois meses quando ele se interessou por uma espiga. Aos poucos comia quando eu chegava e quatro meses depois aceitou comer na minha mão. Foi um dia de alegria. Se tivesse foguetes tinha soltado. Deixou daí em diante que eu o acariciasse e até concordou quando levei a escova para escová-lo. Agora precisava colocar nele a rédea e por último a sela. De novo ele sumiu no canto do piquete. Voltou e sumiu novamente. Um dia deixou que eu colocasse nele a sela. E a coragem de montá-lo? Chamei a Celia e os meninos para assistir. Não para exibir não. Seria se eu sofresse alguma acidente na montaria. Deixei a C-10 em ponto de bala caso em me machucasse para ela me levar Ao pequeno Hospital de Pirapora. Surpresa. Ouro Negro deixou que eu o montasse sem reclamar, sem pular ou empinar. Dei algumas voltas e ele obedeceu.

             As coisas sempre tem uma razão de ser. No mês seguinte recebemos a visita do Comandante e ele como sempre trouxe uma comitiva de amigos. Quer saber? Os amigos do comandante eram quase todos esnobes. Achavam que os funcionários estavam ali para servi-los em tudo e isto me desgostava. Falei um dia ao Comandante. Ele riu e disse que ficasse em casa. Passasse para outros esta incumbência. Estava na minha varanda ouvindo no meu radinho de pilha a Radio Nacional quando o Antonio Tratorista veio me avisar que estavam todos na curralama e fazendo apostas em quem montaria o Ouro Negro. O Comandante macaco Velho não montou uma única vez. Nem o Manoel arriscou. Muita gente fazendo barulho e ele sabia que Ouro Negro estava arisco. – Quanto oferecem Antonio? - Seu Osvardo, já passou de cinco mil reais.

              Falei com a Celia e ela achava que eu não devia ir. Mesmo que montasse poderia ser que o Comandante não visse com bons olhos. Eu estava de olho em uma Variant Brasília que a amiga de minha mana em São Paulo estava vendendo por ótimo preço. Precisava de um carro. Nunca tive um na vida. Peguei três espigas de milho, coloquei no bolso, montei na Cristal e fui para a curralama. Estava uma festa lá. A cerveja jorrava. Tonico Borra Mancha improvisou uma churrasqueira e a carne parecia gostosa. Procurei o Comandante. Senhor! Quanto todos irão me pagar para montar o Ouro Negro? O Comandante caiu na risada. Falou com todos e eles queriam ver alguém se esborrachar no chão. Faltava para eles este espetáculo. Juntaram os reais de cada um. Chegou a onze mil reais. Papagaio! Quer saber? Minha consciência doeu. Ninguém sabia da minha amizade com Ouro Negro. Tudo foi feito as escondidas. Mas dinheiro é dinheiro, negócio é negócio,

              Fui devagar sem fazer barulho até Ouro Negro. Muitos anos de experiência no escotismo para se aproximar de animais selvagens apesar de que ele não era. Quando me viu levantou a cabeça e relinchou. Assustei. Ele não fazia aquilo sempre. Deixou que eu o acariciasse, joguei nele a rédea e aos poucos fui encilhando. Coloquei uma espiga em sua boca. Ele não reclamou. Chegou o momento sublime. Pé no estribo bem devagar. Ele tremeu e senti na rédea que ele parecia não gostar. Aos poucos montei. Ele não reclamou. Balancei a rédea, pois não usava esporas. Nunca gostei delas. Senti que ele deu um tranco e saiu a toda para o fundo do piquete. Aguentei-me o quanto pude. Não cai graças a Deus. No final do piquete ele parou. Direcionei a rédea até a curralama. Ele obedeceu. Pela primeira vez mostrou toda sua pose de Cavalo Marchador. Que orgulho. Ninguém nunca o tinha feito marchar. Era nato no Manga-larga. Vi que todos estavam estupefatos. Não acreditavam no que viam.


                O dinheiro veio a calhar. Foi um final de tarde glorioso e até comi churrasco de colchão duro que detestava. O tempo todo fiquei com a consciência pesada e quando o Comandante partiu naquela tarde de domingo eu contei toda a história. Ele deu boas risadas. – Valeu Osvaldo, valeu, nosso churrasco e o desafio tiveram novo sabor. Um mês depois eu olhava na porta da minha casa meu primeiro carro. A Variant branca era linda. Dois anos de uso. Sentia-me nas nuvens. Dizem que do primeiro a gente não esquece e eu nunca o esqueci. Passado tantos anos, mais de trinta e sete anos nunca me esqueci daqueles belos tempos que se foram. Devia ter tirado uma foto de Ouro Negro. Não tirei. Foram anos e anos de amizade, mas nunca fiz dele meu cavalo da lida. Ele era um rei e como tal devia ser considerado. Li uma vez que o verdadeiro paraíso terrestre reside sobre o dorso de um bom cavalo. Dizem que seus relinchos levarão a fé, ressoando nos ouvidos dos infiéis e enchendo de medo seus corações. Aprendi que quem cuida bem de seu cavalo terá sempre uma fonte de perpétua felicidade. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Lembranças gostosas que ficaram no tempo...



Lembranças gostosas que ficaram no tempo...

Hoje deixei minha mente viajar ao passado. Tem hora que cada um de nós aprendemos sem nunca pensarmos que estamos aprendendo. São coisas da vida e a vida nos dá lições para que nunca mais esquecermos. Vida feliz, família unida, meus dezessete anos e ainda considerado um jovem a busca de si mesmo. A escola ficou para trás, minhas raízes acreditava ser outra. Um erro que cometi. Se o destino fosse outro quem sabe não seria o que sou hoje. Um trabalho simples. Ajudando meu pai. Meu pai, grande homem. Humilde, simples caladão. Entendia meu ponto de vista, era como ele soubesse que cada um de nós tem uma missão. Sem saber o meu destino deixava o tempo mostrar até onde eu iria.

Era seleiro. Fazia selas para animais. Eu o ajudava no que podia. Fazer um cinto, uma meia sola em uma botina, um desenho nas abas das selas. Sempre um trocado no final de semana. Pouco mal dava para pagar uma entrada no cinema ou gastar no meu escotismo fantástico. Notei que em suas horas de folga ele estudava muito. A noite ficava até tarde com seus livros de estudo. Um belo dia foi a uma cidade onde tinha um amigo seleiro e vendo tudo. Não foi uma grande venda, pois seu amigo era pessoa simples como ele. Alugou um ponto pequeno bem próximo da avenida principal. Mandou fazer uma placa – Radio-técnico – Consertamos rádios e aparelhos elétricos.

Assustei, ainda eram poucos os que tinham um radinho. Um mês depois chegou um homem que não era da nossa cidade. Nas mãos um radinho de pilha. Deus do céu! Nunca tinha visto um. Papai virou mexeu e consertou. Grande homem meu pai. Um cursinho e de seleiro agora era um Técnico em Radio. O tempo foi passando. Ele não ficou rico, mas não deixava nos faltar nada. Eu pensei comigo porque não ser também um? Porque não ler os livros dele? – Ele riu. Não filho. Você tem de se inscrever no mesmo curso que fiz. Uma carta para o Instituto Monitor em São Paulo foi o inicio. Achei que seriam peças, desenhos técnicos, mas não foi nada disto. Primeiro uns livrinhos de matemática, caramba, nunca gostei de matemática, mas li e reli um por um. Mandava semanalmente as respostas pedidas.

Desisti cedo. Era sós equações, multiplicações e olhe hoje sou bom em cálculos graças aqueles livrinhos. Mas não continuei. Ainda ajudava meu pai. Sabia ver se uma válvula tinha queimado trocar uma ou outra peça, mas tudo sob orientação dele. Os trocados semanais continuavam. Um belo dia ele não foi trabalhar. Assim ficou por meses. Eu não sabia de nada. Mamãe chorava sempre e dizia – seu pai está doente. Acho que tenho de levá-lo para Belo Horizonte. Minhas irmãs trabalhando não deixaram faltar nada. Eu abria a oficina. Um ou outro radio até que arrumava, mas sempre na linha do que ele me ensinou. Alguns meses depois decisão tomada. Mudar para Belo Horizonte. Meu pai precisava ser tratado. Diabete. Uma doença desconhecida. Alugaram uma casinha em um bairro de periferia. Hoje nem tanto.

Lá se foi minha mãe meu pai, minhas irmãs. Capazes e conhecedoras logo estavam trabalhando. Eu fiquei com a missão de vender a oficina de meu pai e seus apetrechos. Também nossa casinha que nada mais era que um barracão em L. A gente aprende vivendo o fato. No escotismo é assim. Aprender a fazer fazendo. A casinha vendi logo. Já tinha combinado o preço com minhas irmãs. A oficina não. Tinha lá mais de vinte rádios que estavam para conserto. Precisava localizar os donos. Escoteiros amigos me ajudaram. Fiquei três meses procurando. O que sobrou vendi para outro radio técnico na cidade. Ele me garantiu que se aparece os donos dos últimos rádios que sobraram ele entregaria. Confie pois era homem de palavra.

Não voltei para BH logo depois de tudo vendido. Ofereceram-me um emprego. Venda de livros. Risos. Logo eu, um péssimo vendedor. Quatro meses viajando aqui e ali e o que recebia mal dava para as despesas. Dezoito anos me alistei no exército. Um dia conto todas minhas aventuras lá. Não foram muitas, mas tem algumas interessantes. Terminado o meu tempo e dado baixa fui embora para Belo Horizonte. É a vida nos revela surpresa. Dois meses desempregado. Usiminas está admitindo rapazes. Procurar o setor de pessoal. Lá fui eu. Aprovado. Uma passagem de trem até Ipatinga. Nenhum adiantamento. Uma mala daquelas antigas, um travesseiro enrolado, um cobertor na mochila desembarquei aturdido na estação de Intendente Câmara.

Como aprendi ali naquela Usina. Praticamente meu começo profissional. Tantas coisas aconteceram. Fica para outro conto e alguns já estão aqui neste meu blog. Nunca fui de tomar decisões que poderiam modificar o meu destino. Dizem por aí que se o cavalo estiver encilhado monte. Se não você vai perder a oportunidade de sua vida. Tive muitos cavalos encilhados em minha porta. Nunca montei em nenhum. Não tenho arrependimentos. Não adianta. Começar de novo sim voltar ao passado para recomeçar não.


O tempo lá fora está frio ainda. Venta e isto ajudar a aumentar a sensação de frio. Dizem os meteorologistas que mais três dias tudo vai mudar. Frio, não posso viver com ele. Voltar no tempo. Deixar a mente buscar a historia, historia de uma vida. Boa ou má, interessante ou não. A vida ainda não acabou. Muitas coisas irão acontecer e o passado não pode desaparecer. Que assim seja! 

domingo, 7 de julho de 2013

O meu amigo Carlos. Mais que um amigo.



O meu amigo Carlos. Mais que um amigo.

                  Muitos têm sua própria definição de amigos. Se procurarmos bem cada escritor, cada poeta tem sua própria maneira de descrevê-lo. Eu gosto de muitas que li e guardei comigo para ler de vez em quando. Mas amigos? O que é um amigo? Pergunto-me sempre e me ponho a pensar nos meus amigos que conviveram comigo hoje e no passado. A maioria eu tiraria o chapéu sem sombra de dúvida. Mas quer saber? Eu tive um diferente. Parece que o destino foi quem nos colocou juntos e que poderia ter durado para sempre. Para dizer a verdade nunca soube seu nome completo. Só Carlos o Escoteiro. Ficamos amigos durante três anos e depois nos separamos para nunca mais nos encontrarmos. Não era amigo de infância. Quando penso nele e sua vida depois que o conheci me vem na lembrança passagens que eu nunca mais apaguei da memória.

                            Eu morava em um alojamento de madeira onde dormiam oito homens em camas beliche na Usiminas. Só mesmo tendo sido Escoteiro para enfrentar aquilo. Eu tinha feito vinte e dois anos, mas não tinha medo da vida. Já sabia como enfrentá-la. Meu passado Escoteiro me ensinou muito. Eu trabalhava na “Boca” do Alto Forno um. Dois meses de admissão. Programador. Acompanhava a corrida de gusa líquido até a Aciaria, pesando o “panelão” cheio e caroneando em uma locomotiva a diesel e cá para nós, eu adorava aquilo. No outro turno conheci outro programador, o Raimundo. Mais velho. Nos seus trinta e cinco anos. – Olhe Osvaldo, vejo você falando e falando em escoteiros, tem outro que mora bem próximo ao meu alojamento que também só fala nisto. Todo mundo o chama de Carlos Escoteiro. Quer conhecer? 

                           O inicio de uma grande amizade. Passávamos horas conversando e contando nossas historias escoteiras. Ele tinha sido Escoteiro da Pátria um alto título que poucos no escotismo conseguem. Sua família de Juiz de Fora, seu Grupo Escoteiro também. Em uma semana colocamos as “lambanças” do passado em dia. Mas tudo não parou por aí. Quem é Escoteiro sabe. Não dá para ficar só de lembranças. Éramos novos, tínhamos que fazer os sonhos andarem. Escolhemos um cidade e lá fomos nós montar um grupo Escoteiro. Olha que não foi fácil. Durante toda a vida que vivemos juntos naquela usina sempre trabalhamos em turnos diferentes. Lembro que uma noite eu ia trabalhar pela manhã e ficamos eu e ele até cinco da madrugada para escolher o nome do grupo e a cor do lenço.

                           Nossa amizade era tanta que ficamos no mesmo quarto em uma pensão. Se fosse hoje tenho certeza que iriam nos julgar um casal de gay, mas naquela época não se falava sobre isto. Se quiserem saber, eu e o Carlos nunca fugimos do bom senso da lei do Escoteiro. Ela para nós sempre foi sagrada. O gasto para muitos detalhes e materiais do grupo Escoteiro nós fizemos com nossas pequenas economias A alegria dos primeiros meninos, as primeiras patrulhas as primeira matilhas valiam qualquer quantia gasta. O grupo cresceu. Carlos e eu éramos um só. Nossos salários eram calculados juntos para o que iriamos fazer e comprar. Ele para mim foi um grande expert de lobinhos. Criou na sede escoteira a mais linda Gruta de Lobos que já vi. Lá montou a Roca do Conselho e o bastão totem era sui-generis.

                            Em seis meses tínhamos uma Alcateia completa, uma Tropa e três patrulhas sêniores. Conseguimos na comunidade local vários adultos para ajudar e seis deles foram fazer os primeiros cursos na capital. Eu e ele vivíamos juntos em todas as horas que conseguíamos trocar ideias. Alugamos uma casinha e saímos eu e ele da pensão. Eu ia ficar noivo e sempre estava na cidade onde a Celia morava. Ela tinha uma amiga e o Carlos logo se interessou. Agora melhor. Noiva e amiga juntos. O tempo foi passando. Eu casei e ele também. Enquanto solteiro não saia de minha casa. Almoçava e jantava. Era meu irmão e meu amigo. Tinha este direito. Chegaram a condenar aquela conduta. Disseram que eu estava cego e não via o que acontecia. Pessoas não sabem o que significa amizade. Amizade profunda e sincera. Isto quase destruiu todo o trabalho no grupo Escoteiro.

                               Seu espírito de voluntariado se expandiu. Entrou para o sindicado da Usina pensando em ajudar. Sindicados naquela época eram mal vistos. Tentei alertar, disse que tínhamos um grupo Escoteiro para olhar, tínhamos família, eu já tinha um filho e ele logo teria o seu. Não adiantou. A revolução o pegou de mão cheia e de muitos panfletos do sindicado em sua casa. Foi preso e torturado. Quase o mataram. Abandonaram-no em uma estrada secundária entre Belo Horizonte e Sete Lagoas com as mãos amarradas, com duas unhas da mão arrancadas e mandaram-no correr. Começaram a atirar para cima e a dar gargalhadas. Voltou tristonho e taciturno. Já não era o mesmo Carlos. Sai da Usina. Emprestei a ele metade do que recebi de indenização. Nunca me pagou e nunca cobrei.

                               Alguns anos depois recebi a noticia. Tinha morrido de um horrível acidente no trevo da BR 040 em Juiz de Fora. Comprara um Karman Guia e uma carreta passou por cima. Não fui ao seu enterro. Só fiquei sabendo um mês depois. Chorei por dentro por muito tempo. Sinto falta dele. Das suas risadas, do seu jeito de falar e andar. Um bom sujeito. Um grande amigo. Nunca o esqueci. Até hoje de vez em quando me lembro daqueles tempos. Tempos de ouro. Um escotismo puro sem vaidades e sem trauma de mando ou ser chefão. Um escotismo onde a amizade era sincera e que quando isto existe tudo valeu a pena. De vez em quando me recordo de tudo. Sinto-me feliz em saber que o Grupo Tapajós que demos nosso sangue existe até hoje.


                               Foram três anos e pouco. Três anos que valeram por um eternidade. Conheci depois centenas e centenas de escotistas. Mas como o Chefe Carlos nunca mais vi. Puro nos seus pensamentos, nas suas palavras e nas suas ações. Que Deus o tenha! 

sábado, 22 de junho de 2013

Nem tudo que reluz é ouro.



Nem tudo que reluz é ouro.

A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.

Acompanho a saga do nosso povo sofrido. Eu sou um deles. Como somos enganados. Acho que não só aqui, mas em muitos países. Sempre alguém querendo aproveitar, ganhar mais sem medir consequências e até onde pode ir. Dizem que sempre tem o dia onde passamos a enxergar o que não víamos. Promessas mil nas horas que antecedem as eleições. Os humildes acreditam e dão seu voto sorrindo. Os anos passam e eles continuam acreditando. Pensando bem até nós que temos um pouco mais de conhecimento ficamos sem saber quando estamos lá na urna tomando a decisão. Não tem jeito. Vou votar nele. Pelo menos ele é assim e assado. Retorno? Tem alguns que sim. Pedidos simples que deveríamos ter o direito de pleitear, mas as dificuldades são tantas que pedimos a eles. E assim os anos vão passando, passando até que um belo dia despertamos. Chega! Dizemos. E eis que surgem os inconformados. Jovens cheios de altruísmo. Esta turma nova nos abriu os olhos! E lá vamos todos reivindicar nossos direitos na rua. De norte a sul de leste a oeste só uma palavra de ordem: - Ocupem as ruas, as praças, passeiem e mostrem que somos unidos. Vamos mostrar a todos que temos nossos direitos.

Estou Velho. Muito Velho. Passei por poucas e boas. Sempre acreditei na força da união. Mas já vi muitos fracassos. Não serve de comparação, mas me lembro de um fato acontecido em 1963/64 quando trabalhava na Usiminas. Havia um Setor de Vigilância que se achavam acima do bem e do mal. Eram os donos de tudo. Diziam que eles tinham um porão escondido e ali muitos apanhavam ou morriam. Todos tinham um medo enorme deles. Mas era uma época onde se deixava levar como hoje. Não dizem que aonde a vaca vai o boi vai atrás? Era borduna daqui, dali e reclamar para quem? A própria policia na época diziam também que eram mancomunados. Eu seguia o rebanho. Precisava trabalhar. Tinha mulher e filhos e não podia perder o emprego. Uma época que dávamos bênçãos aos céus por ter um lugar onde mensalmente recebêssemos nosso rico dinheirinho. Um dia pego minha bicicleta e lá vou eu trabalhar. Oito da matina. Portaria 4 tomada. Milhares de peões ali. Que foi? Estão “caçando” vigilantes. Parece que mataram dois de nós! – Ninguém entra ninguém sai. Chega um caminhão cheio de policiais. Na carroceria armada em cima de um tripé uma metralhadora ponto 30. Perigosíssima! A conhecia quando servi o Exercito.

Eu fiquei ali olhando abismado. Enfrentar a policia? Os vigilantes? Só vi o estouro da boiada. Gente correndo pra todo lado. Dois soldados abriram fogo com a metralhadora. Vi muita gente ferida. Para dizer a verdade o soldado atirava a esmo em cima de mais de três mil peões. Dizem que morreram oito. Bota oito nisto. Mas contar a verdade para que? Os vigilantes sumiram. A policia se entrincheirou num alto de morro. A usina entregue as baratas, ou melhor, aos peões. Liberdade gritavam todos. Direitos gritavam outros. Dois batalhões militares desembarcaram dois dias depois. Calma. Não entraram na usina. Ficaram nos quarteis. Sabiam que uma faísca iria provocar uma guerra. Ardilosamente um diretor fez contato com o sindicado. - Convidemos os peões para assumir interinamente como vigilantes ele disse. O salário deles será dobrado! Beleza. Eu mesmo aceitei. Estava noivo, duro e precisava montar minha casinha. Trabalhava de doze a quinze horas por dia. O tempo foi passando. Um mês, dois, três e no quarto apareceram os novos vigilantes. Novo uniforme, lindos, gente massuda, altos, fortes e bem treinados.

Seis meses depois eu vi que nada mudou. Piorou isto sim. Os novos vigilantes por qualquer coisa pegava pelos cabelos e desce cassetete no lombo. Eu mesmo levei alguns só porque reclamei deles um dia por fecharem os portões cinco minutos depois da hora. Cheguei atrasado. Não me deixaram entrar. A lei do cão de novo em ação. Na cidade e nos bairros a policia não deu folga. Qualquer coisa pau neles os pobres peões. Os valentes peões que um dia se revoltaram pensando que tudo ia mudar voltaram a ser aqueles mesmos a seguir o pai ganso. Dois anos depois me deram um chute no traseiro e me mandaram embora. Até hoje fico pensado que sem um líder nada acontece. Mas se este líder puder ser comprado pior ainda.

Hoje estamos vendo uma revolta acontecendo. Sem uma pauta sem uma definição do que deve ser ou como vai ser. Os políticos calados e escondidos em suas cavernas onde tramam como ganhar com esta revolta e melhorar aquilo que querem. Mais poder e mais dinheiro. Podemos acreditar? Claro que sim. Se não houver uma grande mobilização e politização nada vamos conseguir. A boa fé sempre é um caminho. Mas precisamos ver que nada se resolve sem formação e educação. Esta sim é solução final. Quando soubermos quem é quem, quando escolhermos pessoas capazes (como são difíceis de encontrar) poderemos melhorar e chegar a ser uma Suíça onde se vive melhor do que em muitos países. Assim dizem. Mas isto demora. Agora fico esperando que apareçam alguns lideres desta revolta silenciosa. Tenho receio. E muito. Não duvide, mas eles acreditando que podem mudar uma nação iram ser cooptados por algum partido e apresentados como os novos salvadores. Já vi este filme no passado com as “Diretas já” e o “fora Collor”. Muitos deles se tornaram deputados, senadores e o escambal.

De qualquer maneira foi um inicio. Valeu. Sempre vale. Acredito que os lá de cima aprenderam uma lição. Não são imunes de ações por parte de um povo sofrido. Mas não vamos esperar milagres. Nós escotistas temos uma responsabilidade com os jovens. É hora de mostrar a eles o verdadeiro caminho de um homem de caráter, ética e responsabilidade com seu país. Sei que muitos anos e anos irão se passar. Um dia chegaremos lá disto tenho certeza. Valeu tudo que aconteceu e está acontecendo. A solução, no entanto está longe. Tem outros caminhos. Eu sei que vai acontecer de novo. Nada melhor que terminar estes meus pensamentos com o que escreveu Augusto Branco - “Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é "muito" para ser insignificante”.

Pensando em conseguir de uma só vez todos os ovos de ouro que a galinha poderia lhe dar, ele a matou e a abriu apenas para descobrir que não havia nada dentro dela.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Lembranças da minha vida.



Lembranças da minha vida.
             
 Este é um blog sem marketing. Escrito como uma forma de colocar em letras espalhadas como se fosse um relato de tudo que vivi desde que nasci até hoje. Não poderia chamar de autobiografia. Não entro em muitos detalhes. Escrevo somente os fastos acontecidos. Claro colocando também no possível um pouco de nostalgia, ou como se diz por aí, um pouco de poesia, pois de outra forma acho que não teria graça quando se for ler. Claro como é um blog pode aparecer alguém e vai ler meus escritos. Tudo bem. É um blog aberto. Fico feliz em saber que amigos ou não descobriram ele e o visitam.
Não irei fazer artigos frequente. Eles vão surgindo assim como as ideias vão se formando quando volto ao passado.
Se alguém estiver lendo e me conhecer saiba que não vai encontrar quase nada de escotismo aqui. O escotismo que eu amo está em outra páginas em outros blogs. Agradeço sua atenção por perder um tempo lendo meus escritos. Não espere nada de extraordinário. Isto não existe. São fatos e dos fatos não podemos fugir.
Uma boa leitura e o meu muito obrigado!

As flores lindas da primavera voltaram.

As flores lindas da primavera voltaram.
(Baseado em fatos reais).


                Lembranças nem sempre nos trazem o perfume das flores singelas que desabrocham na primavera. Se acharmos que a vida não é um mar de rosas e as dificuldades e os desapontamentos e incertezas de fatos que aconteceram, e mesmo amargos na época, mesmo assim ainda nos trás uma pontinha de saudade. Vou voltar no tempo. 1961/65. Eu era feliz. Recém-casado já com meu primeiro filho vivia no corre, corre em cima de uma bicicleta que me levava de casa para o trabalho e o escotismo. Trabalhava em turno. Usiminas. Grande siderúrgica. Milhares de peões como eu. Um formigueiro de gente saindo e outro entrando. Eu gostava de trabalhar ali. Nos meus vinte e três anos eu era muito feliz. Planos eram poucos. Só ter mais um ou dois filhos e ser feliz como sempre fui. A vida para mim sem trabalho não tinha sentido e não me fazia bem. Fiz muitos amigos. Mesmo no horário de meia noite as oito da manhã eu ainda sorria ao retornar para meu lar. Nunca lamentei. Não era rico, mas dava para viver. Quando não tinha carne na mesa tinha peixe. Eu nas folgas ia pescar no Piracicaba um rio pequeno, mas piscoso.

                 Tantas coisas aconteceram ali. A morte de dezenas de peões pelas autoridades policiais da época, fatos escondidos na imprensa, tudo por que a Segurança da Usina se tornou uma KGB. Outra história para contar no futuro. Uma coceira, ou melhor, uma sarna que varreu a peãozada e duraram meses, me foi presenteada. Meses coçando isto sem considerar a perna e os braços que ficaram em carne viva, nunca reclamei. Os vários trens lotados de prisioneiros para averiguações em Belo Horizonte no DOPS durante a revolução dos militares não era problema meu. Eu tinha um futuro, simples, mas tinha. Era um homem feliz e ali nunca reclamei. Tudo isto passava por mim como se fosse uma história contada só para divertir. Não faltava e nem chegava atrasado. Um dia soube que ela estava chegando. A Rádio Peão já tinha anunciado em manchetes. A Temida Booz Allen Hamilton uma empresa de consultoria especializada em Estratégia estava chegando. Sua fama já era conhecida no Brasil. Contratada pela Usina para fazer uma reformulação. O medo se apossou de todos. Os idealizadores da Usina os japoneses do pós-guerra, diziam que cada tarefa precisava de cinco funcionários, brasileiros novos na Diretoria achando que não. Uma limpeza precisava ser feita e reformulação chamada na época de Organizações e Métodos pretendia demitir quarenta por cento dos funcionários. Dos onze mil pelo menos quatro mil e quinhentos iam dar adeus ao seu emprego.

                  As rodinhas de funcionários aqui e ali só comentando. No meu setor cinco engravatados nos chamavam um a um. – O que você faz? Para que serve? Quem é seu Chefe? E assim as perguntas pipocavam. Um questionário temido. Quase duas horas respondendo engasgado. Um medo tremendo. A gente que vivia feliz contando piadas passou a ter um medo terrível. A maioria de nós passava longe dos engravatados. Agora não havia mais conversa a dois. Não havia mais rodinha onde se comentava os fatos do dia. Cada um infelizmente só pensava em si. Ir embora? Trabalhar onde? Eu mesmo sabia como era difícil conseguir outro emprego. Foi difícil para conseguir este. Tinha mulher e filho para sustentar. Precisava trabalhar. As noites mal dormidas, os pesadelos e então começou as demissões tão anunciadas. Meu Deus que covardia eles usaram para demitir. Todos desciam dos caminhões que os levavam até seu setor de trabalho e uma fila se formava para bater o ponto. – Quem não encontrasse o cartão de ponto estava demitido. Na fila uma tremedeira. Todos rezando para que seu cartão estivesse lá. Até hoje fico pensando se era uma ação correta. Você mal dorme, pega um caminhão lotado de peões chega ao trabalho por volta das onze e meia da noite e entra em uma fila para descobrir que seu cartão não está lá?

                Foram dois meses de agonia. O Tião foi demitido. O Waltinho também. Até o Marquinhos que era Mestre também foi. Assim um atrás do outros. No caminhão na ida e vinda ninguém falava. Soube que a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) levantou o problema para a diretoria. O número de acidentes crescera assustadoramente. Soube pelo Raimundo que trabalhava comigo e era “Cipeiro”. – Osvaldo eles não estão nem aí. Mesmo com quatro mortos na Aciaria só este mês não resolveu. Isto sem contar outros duzentos com diversos tipos de acidentes. Ninguém da Diretoria queria dar o braço a torcer que a culpa era do modo de ação da Booz Allem. Porque não passar a lista dos demitidos para a chefia? Porque ela não chamar um por um e comunicar com mais humanidade? Não adiantou. Os acidentes duplicaram. Quem poderia trabalhar em paz se mais dia menos dia seu cartão de ponto não estivesse na chapeira?

                Três meses de terror. Agora a “peãozada” fazia rodinha em volta da Chapeira à medida que os caminhões chegavam. Acabou-se a solidariedade. Cada um por si e Deus para todos. Risinhos jocosos, palmas quando alguém dava falta do seu cartão de ponto. A dor de ser demitido era agora aumentada pelas chacotas dos que ficaram. Seria uma noite incrível do demitido quando retornasse a seu lar. Muitos não tinham a menor ideia do que fazer se isto acontecesse. A indenização naquela época não é como hoje. Passei a descer do caminhão por último e ficar em uma esquina da Balança Ferroviária até o toque da sirene. Hora da troca do turno. Ninguém lá e eu ia bater o meu cartão rezando. Deus! Por favor! Não deixe que tenha sido escolhido. Mas não adiantou. Um dia meu cartão não estava mais lá. Meu dia chegou. Tremi. A voz embargada. Queria chorar e não consegui. Fui para o Alto Forno trabalhar com a mente sem saber o que pensar. Eles, os peões meus amigos vieram solidarizar. Sabiam que eu era o próximo da lista. Passei uma noite sinistra trabalhando ali naquela “Boca do Forno”. Minha última noite. Não culpei ninguém, pois não fui o único.

               Pela manhã não me despedi de nenhum amigo. Deixei para pegar o caminhão de retorno na Laminação. Bem longe deles. Era minha última viagem. Tinha medo de chorar. A turma que no ponto esperava a condução era desconhecida. Mas seus semblantes eram os mesmos. O medo de uma demissão. Celia me esperava na porta. Morávamos em uma casa simples no Bairro da Candangolândia. Belo nome. Casinha pequenina. Telhado de amianto. Um quarto, sala e cozinha. Banheiros no quintal. Ela chorava. Abracei-a também chorando. Ficamos ali sentados e abraçados em um banco que existia em frente a casa, com meu primeiro filho de um ano e meio brincando na grama do quintal. As coisas são assim. Ninguém passa pela vida sem pisar em espinhos. Duro foi sair da Usina. Só me pagariam se saísse da casa que lhes pertenciam. Uma história para ser contada em outra ocasião.


             Duas semanas depois, após eu e Célia carregarmos o pequeno Chevrolet do Seu Nestor com meus poucos apetrechos, partimos. Minha mãe na capital me ofereceu um quartinho. Na estrada com o caminhão sacolejando na estrada de terra, lá na “boleia” ia eu Celia, Jan e seu Nestor. Paramos em uma vendinha para comprar pães e mortadela. Nossas refeições até chegar a minha nova morada. Dei-me ao luxo de comprar um Guaraná para meu filho, pois o dinheiro era curto. A viagem seria longa, mais de nove horas naquela boleia sacolejante.  Meu filho de um ano e pouco sorria, sorriso de criança é lindo. É contagiante. Mas eu e Celia com os olhos marejados de lágrimas seguíamos pensando o que a vida nos reservaria. O que será de nós a partir de agora? Lembrei-me do que disse o Lobo Gris aos seus irmãos na Pedra do Conselho quando Mowgly partiu. – “As estrelas desmaiam, concluiu o Lobo Gris de olhos erguidos para o céu. Onde me aninharei amanhã? Porque dora em diante os caminhos são novos”! Mas isto é outra história. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um adeus ao Odair.



Um adeus ao Odair.

             A vida às vezes nos reserva surpresas e experiências que não deixam saudades, mas que nunca esquecemos. Ainda solteiro e trabalhando na Usiminas em Ipatinga MG, eu o Carlos e o Odair dividiam um alojamento próximo ao Carirú. Nada há ver com o bairro, pois era destinada a nata da liderança da usina. Nós três morávamos em um alojamento de madeira, infestado de percevejos e pela manhã ou durante o dia quando acordávamos o corpo estava todo mordido. Uma situação insustentável. Como participávamos do escotismo, e como já estava em andamento o plano de organizar um grupo Escoteiro em Melo Viana resolvemos morar lá e vir trabalhar no transporte da usina. Nada mais nada menos que um caminhão lonado com mais de cem homens transportados por turno. Melo Viana era um distrito da cidade de Coronel Fabriciano.

            Alugamos uma casinha de dois quartos e sala que servia de cozinha. Ali instalamos a nossa republica. Nossas refeições eram feitas na pensão da dona Aurora. Em um domingo, o Odair estava de folga de oitenta horas. Eu tinha trabalhado de meia noite as oito e o Carlos ia pegar às quatro da tarde. Era assim nossa vida. Dificilmente estávamos juntos os três. O Odair convidou amigos e estavam “batendo uma pelada” em frente à casa. Entrei no jogo e o Carlos também. Com quinze minutos de jogo o Odair tomou uma bolada no peito e caiu de maduro. Corremos para ele que soltava golfadas de sangue pela boca. Era uma época diferente. Não tinha carros assim para transporte facilmente. Conseguimos uma hora depois um taxi, que nos comprometemos pagar no pagamento e levar o Odair ao Hospital Marcio Cunha em Ipatinga. Um hospital que pertencia a Usiminas.

              Odair chegou morto ao hospital. Soubemos que tinha uma tuberculose avançada. A bolada produziu uma hemorragia. Quase não saiamos de sua vida. Na Usiminas ele não tinha amigos. Morava em Muriaé. Naquela época uma viagem de estradinhas de terra até lá. Eu e o Carlos estávamos muito abalados com a morte dele. Éramos os únicos amigos que ele tinha. Era nossa obrigação leva-lo ate sua família em Muriaé. Onde morava lá teríamos que descobrir. Não foi fácil. Uma siderúrgica que ainda não se preocupava com seus funcionários e mesmo tendo um departamento com varias assistentes sociais custamos a conseguir um veículo para levá-lo. No necrotério do hospital nos deram dicas para tentar conservar seu corpo antes que entrasse em estado de decomposição. Sabíamos que após um dia o cheiro aumentava e a pele sofria as primeiras decomposições.

              Para dizer à verdade o que vivemos nesta viagem poderia ser considerado um filme de terror. De arrepiar os cabelos de qualquer defunto. Depois que a gente passa desta para melhor, nosso corpo perde suas defesas e começa a ser atacado por todos os lados: bactérias, animais e até substâncias produzidas por nós mesmos dão início ao fim. O cadáver vai ficando escuro e inchado, a pele e os órgãos se desfazem e o cérebro vira um caldo. Depois de algum tempo, não sobra quase nada. Quase doze horas de viagem. Levamos três litros de formol. A cada uma hora em todos os orifícios dele empapávamos algodão com formol e colocávamos.   

              Eu rezava para chegar logo. Era um jipe o que a usina nos cedeu. Ainda bem que um motorista educado e prestativo. Nem eu nem o Carlos tinha dinheiro nos bolsos. O Zé Motorista pagou um café reforçado em um posto de gasolina que parecia abandonado. Chegamos a Muriaé pela manhã. Interessante que quase toda a cidade já sabia do acontecido ao Odair. Filho da terra sua família humilde era bem quista. Fácil encontrar a casa dele. A família desesperada. A gente sem saber como agir. Não tínhamos nenhuma experiência. Não ficamos para o enterro. Zé Motorista tinha de cumprir uma escala e nós também. Sabíamos que a usina não abonaria nossas fastas.

              A viagem de volta foi uma viagem do silêncio. Eu pensando no acontecido. Pensando no Odair. Pensando como a morte acontece de repente sem ninguém esperar. Demorou meses para voltar ao normal. A casa parecia assombrada. À noite praticamente a luz de lampião, pois a elétrica mal acendia uma lâmpada, nos assustávamos em cada canto. Até hoje eu me lembro do Odair. Sua fisionomia foi desaparecendo com os anos. Amigos de meses. Ficamos juntos acredito que por nove ou dez meses. A morte é difícil de ser compreendida. Eu um espírita me assusto com ela até hoje. Meus amigos foram partindo e eu ficando. Lá se foi o Carlos. Ainda novo em uma batida de seu automóvel em Juiz de Fora. E cada um foi indo. O Lucio, Dona Lucia, o Dutra e tantos outros partiram. Eu fui ficando.

              Nosso passado não nos serve só como lembrança. Ele tem também a esperança do aprendizado. A vida é um eterno aprendizado. Temos livre arbítrio para decidir nosso destino, mas ele foi traçado antes. Se no caminho certo ou não teremos que voltar e refazer o caminho. Meu dia vai chegar. Não corro para isto. Quando chegar tudo bem. Para isto acredito em Deus. Acredito numa força maior que vai me dizer se minha trilha foi a que eu e alguns lá de cima tinham programado. Se não, não vou gritar exasperar nada disto. Vou aceitar. Sempre dito para mim mesmo – O que tem de ser será...