EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO
Celia, 49 anos de felicidade. Não sei viver sem ela

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Arroz com feijão é bom demais!


Arroz com feijão é bom demais!

            Eu sempre gostei de arroz com feijão. Feijão preto é claro. Minha mãe era batuta para fazer feijões de todos os tipos. Era cortado, inteiro, com farinha, com linguiças da roça e um dia ela nos serviu uma sopa de feijão que entrou para a história. E o arroz? Soltinho, sempre deixava no fundo da panela uma rapa que eu adorava. Depois casei, descobri que a Célia era supimpa na cozinha. Seu feijão e seu arroz eram e ainda é inigualável. Eu tive duas fases na vida que nunca esqueci. A primeira foi quando casei e trabalhava na Usiminas em Minas Gerais. Ainda morava em Melo Viana, um distrito de Coronel Fabriciano. Era divertido, pegávamos um caminhão lonado e viajávamos mais de 40 quilômetros até a usina. Ida e volta, na carroceria mais de 100 peões. Um belo dia o Francisco que também morava em Melo Viana e como nós pagava aluguel disse que tinha um plano. Mais dois vieram se juntar a ele. – Vamos invadir um Galpão de uma Empreiteira na Candagolândia (um bairro de Ipatinga, próximo a Usina). Já verifiquei um galpão tem oito quartos e fica dois para cada um. Usamos os banheiros e tanques em conjunto.

                         Dito e feito. À noite juntamos nossos trapos, alugamos um caminhão que serviu para os quatro e partimos. Trabalhamos a noite toda para abrir uma porta de um quarto ao outro. Foi divertido. Durante um mês ninguém foi lá reclamar. Dois meses depois apareceu o fiscal. Sujeito valente, ameaçou, disse que ia chamar a policia e coisa e tal. Não chamou e continuamos lá. Um belo dia apareceu um funcionário da usina. Ofereceu-nos algumas casas na própria Candangolândia. Casas simples de dois cômodos. O telhado de amianto quase nos fez desistir, afinal trabalhávamos de turno e precisávamos dormir de dia. O vale do Aço tem temperatura média de 40 graus. Eu não discuti. Aceitei os outros não. Tanto ficaram que pegaram casas melhores. Paciência. Sabe o que eu gostava da Candangolandia? Era proximo ao rio Piracicaba. Lá eu podia nadar e pescar. Os vizinhos pacatos, gente boa mesmo tendo que dividir um banheiro e um tanque com quatro.

                         Nunca esqueci a Célia me dizendo: - Osvaldo não temos carne. Só feijão e farinha. Vê se pesca uns lambaris no Rio Piracicaba. Lá ia eu com minha varinha e minha bicicleta. Já conhecia os pesqueiros. Sentava e em menos de vinte minutos uma fieira com mais de 50 Lambaris Bocarra. Compridos, fritos uma delicia. Eu não tinha um ótimo salário. As compras eram feitas na Cooperativa da Usina. Cada um de nós só podia comprar vinte por cento do salário. Assim as compras só uma vez por mês. Minha casa tinha uma mesa, quatro cadeiras, um fogão a gás, uma prateleira de vidro, uma cama e um guarda roupa. Eu tinha também um rádio Philips e em ondas curtas podia ouvir rádios distantes. Eu gostava daquela vida, o Jan meu filho mais Velho já tinha um ano e seu sorriso era encantador. Depois vieram as dificuldades que já contei por aqui. A segunda foi quando fui convidado para ser o Gerente de uma Fazenda no Norte de Minas. Uma outra vida. Gado que sumia de vista nas largas e na beira do Rio das Velhas. Com um barco a motor que tínhamos era coisa de vinte minutos até o São Francisco.

                       Lá as histórias são muitas, mas aqui só vou contar à fartura que tivemos. Celia tinha uma bela horta. Enorme. Antonio Preto ajudava três vezes por semana. Eu dava a ele uma paga razoável. Tinha de tudo. E o galinheiro? Tantas galinhas que diariamente a Célia colhia mais de quatro dúzias de ovos. Amigos em Pirapora se deliciávamos quando chegávamos. Não esquecer o chiqueirinho. Sempre quatro capados engordando. A cada três meses o Seu Manezinho vinha para matar um. Um fogão feito de barro, três tachos enormes, carne à vontade. Célia fritava e colocava em latas de vinte litros com gordura de porco. Uma delicia para comer, era só tirar fritar e se deliciar. Linguiças? Tantas que em cima do fogão na área externa da minha casa quase não cabia. Eram sim linguiças de porco legítimas não essas de hoje. Não esquecer os choriços. Deus do céu! Me dá água na boca só em pensar.

                        Mas não era só isto não, eu vendia de três a quatro vacas mais velhas para açougueiros da região. Eles faziam questão de quando iam embora (eles mesmo matavam e desossavam) trazer um bom bocado de um cupim, de um filé mignon. Enfim era só dizer qual carne e eles traziam. A geladeira não era grande, era a gás, e eu não aceitava tudo que me davam. E os peixes? A lagoa que nas cheias o Rio das Velhas jorrava por dias, era farta em piaus, corvina, belos dourados, grandes surubins. A Célia me chamava e dizia: - Osvaldo, vamos comer um peixe? Traga um dourado, mas pequeno. Não mais que dois quilos! Lá ia eu com minha linhada, um pedaço de carne e meia hora depois estava de volta com o peixe encomendado. Hoje? Bem sempre tenho uma carne na geladeira. Congelada, nada fresco. Nem se compara aqueles lambaris fritos que nunca mais comi. Nem se compara com um filé, um cupim, carne de porco a escolher, linguiças, e choriços. Ah! Eu adoro choriços.  


                          O tempo ficou no passado, mas sempre é bom lembrar. Eu e Célia nos divertimos muito quando as tardes sentamos em nossa varanda e começamos a falar das coisas boas da vida, dos sofrimentos, das mudanças de residência, do escotismo e de tantas coisas. Mas as carnes e os peixes a gente não esquece nunca!     

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

As flores lindas da primavera voltaram. (Baseado em fatos reais).



As flores lindas da primavera voltaram.
(Baseado em fatos reais).

               Lembranças nem sempre nos trazem o perfume das flores singelas que desabrocham na primavera. O que acontece conosco sabemos que nem sempre é um mar de rosas e as dificuldades acontecem porque estão definidas em nossa vida. Estou a contar fatos que aconteceram, e mesmo amargos na época, ainda nos trás uma pontinha de saudade. Vou voltar no tempo. 1961/65. Eu era feliz. Recém-casado já com meu primeiro filho vivia no corre, corre em cima de uma bicicleta que me levava de casa para o trabalho e o escotismo. Trabalhava em turno. Usiminas. Grande siderúrgica. Milhares de peões como eu. Um formigueiro humano de gente saindo e outros entrando. Eu gostava de trabalhar ali. Nos meus vinte e três anos eu era muito feliz. Planos eram poucos. Ter mais um ou dois filhos e ser feliz como sempre fui. Sempre gostei de trabalhar. Fiz muitos amigos. Mesmo no horário de meia noite as oito da manhã eu ainda sorria ao retornar para meu lar. Nunca lamentei. Não era rico, mas dava para viver. Quando não tinha carne na mesa tinha peixe. Era só ir pescar no Rio Piracicaba um rio pequeno, mas piscoso. Bem ao lado de minha casa.

                 Tantas coisas aconteceram ali. A morte de dezenas de peões pelas autoridades policiais da época, fatos escondidos na imprensa, tudo por que a Segurança da Usina se tornou uma KGB. Outra história para contar no futuro. A vida não parava. Veio uma epidemia de sarna, meus braços e pernas ficaram em carne viva. Em 1964 a gente via os vários trens lotados de prisioneiros levados para Belo Horizonte no DOPS. Quantos suplícios e covardia aconteceram com eles.  Não era um estudante e nem um leitor assíduo dos fatos, portanto não liguei muito pelo acontecido. Minha vida agora era proteger minha família e trabalhar. Eu sonhava com um futuro, sonho simples. Nada de riqueza e grandes conquistas. Era um homem feliz e trabalhando na “boca do forno” nunca reclamei. Eu gostava dali, dos meus amigos e nas folgas quando me encontrava com meus meninos Escoteiros. Nunca faltei e nunca cheguei atrasado. Um dia soube que ela estava chegando. A Rádio Peão já tinha anunciado em manchetes. A Temida Booz Allen Hamilton iria dar seu veredito de quem fica e quem sai. Sua fama já era conhecida no Brasil. Muitos tremiam quando viam seus engravatados espalhados pela usina. Fora contratada para fazer uma reformulação de pessoal. O medo se apossou de todos. Os idealizadores da Usina os japoneses do pós-guerra, diziam que cada tarefa precisava de cinco brasileiros para executar. Era assim no Japão. Os novos brasileiros na Diretoria achavam que não. Uma limpeza precisava ser feita e reformulação chamada na época de Organizações e Métodos pretendia demitir quarenta por cento dos funcionários. Dos onze mil pelo menos quatro mil e quinhentos iam dar adeus ao seu emprego.

                  As rodinhas de funcionários aqui e ali comentando. No meu setor cinco engravatados nos chamavam um a um. – O que você faz? Para que serve? Quem é seu Chefe? E assim as perguntas pipocavam. Um questionário temido. Quase duas horas respondendo engasgado e tremendo. A gente que vivia feliz contando piadas no forno quente para passar o tempo, agora vivia com um medo terrível. Quando eles os engravatados apareciam no alto forno um silencio sepulcral. Agora não havia mais conversa a dois. Não havia mais rodinha onde se comentava os fatos do dia. No refeitório ninguém olhava para ninguém. Chegou a hora de cada um pensar si. Demissão? Trabalhar onde? Eu mesmo sabia como foi chegar até ali. Começara tudo de novo? Onde? Eu tinha mulher e filho para sustentar. Precisava trabalhar. Minhas noites agora eram mal dormidas, pesadelos aconteciam. E então começaram as demissões tão anunciadas. Meu Deus que covardia eles usaram para demitir. Todos desciam dos caminhões que os levavam até seu setor de trabalho e uma fila se formava para bater o ponto. – Quem não encontrasse o cartão de ponto na chapeira estava demitido. Na fila uma tremedeira. Todos rezando para que seu cartão de ponto estivesse lá. Até hoje fico pensando se eles se divertiram com esta maldade. Você mal dorme, pega um caminhão lotado de peões chega ao trabalho por volta das onze e meia da noite e entra em uma fila para descobrir que seu cartão não está lá?

                Foram dois meses de agonia. O Tião foi demitido. O Waltinho e o Nonô também. Até o Marquinhos que era Mestre de forno também foi. A turma do meu departamento iam um atrás do outro. No caminhão na ida e vinda ninguém falava. Soube que a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) levantou o problema para a diretoria. O número de acidentes crescera assustadoramente. Soube pelo Raimundo que trabalhava comigo e era “Cipeiro”. – Osvaldo eles não estão nem aí. Mesmo com quatro mortos na Aciaria só este mês não resolveu. Isto sem contar outros duzentos com diversos tipos de acidentes. Ninguém da Diretoria queria dar o braço torcer que a culpa era o medo da Booz Allen e sua sanha em demitir. Porque não passar a lista dos demitidos para a chefia? Porque ela não chama um por um e comunica com mais humanidade? Não adiantou. Os acidentes duplicaram. Quem poderia trabalhar em paz se mais dia menos dia seu cartão de ponto não estaria mais na chapeira?

                Três meses de terror. Agora a “peãozada” fazia rodinha em volta da Chapeira à medida que os caminhões lotados chegavam. Acabou-se a solidariedade. Cada um por si e Deus para todos. Uma maldade por parte de amigos do passado se fez presente. Risinhos jocosos, palmas e gargalhadas quando alguém dava falta do seu cartão de ponto. A dor de ser demitido era agora aumentada pelas chacotas dos que ficaram. Eu soube como era difícil uma demissão, sem eira e nem beira, sem dinheiro e tendo que desocupar a casa da Usina para receber. Eu sabia como foi difícil para muitos chegar e avisar sua família que fora demitido. A indenização naquela época não é como hoje. Com medo das chacotas passei a descer do caminhão por último e ficar em uma esquina da Balança Ferroviária até o toque da sirene. Hora da troca do turno. Ninguém lá e eu ia bater o meu cartão rezando. Deus! Por favor! Não deixe que tenha sido escolhido! Mas não adiantou. Um dia meu cartão não estava mais lá. Meu dia chegou. Tremi. A voz embargada. Queria chorar e não consegui. Fui para o Alto Forno trabalhar com a mente sem saber o que pensar. Eles, os peões meus amigos vieram solidarizar. Sabiam que eu era o próximo da lista. Passei uma noite sinistra trabalhando ali naquela “Boca do Forno”. Minha última noite.  Não culpei ninguém, sempre disse a mim mesmo que o que tem de ser será.

               Pela manhã não me despedi de nenhum amigo. Olhos vermelhos. Deixei para pegar o caminhão de retorno na Laminação bem longe deles. Tinha medo de chorar. A turma que no ponto esperava a condução era desconhecida. Mas seus semblantes eram os mesmos. O medo de uma demissão. Celia me esperava na porta. Morávamos em uma casa simples no Bairro da Candangolândia. Casinha pequenina. Telhado de amianto. Um quarto, sala e cozinha. Banheiros no quintal. Ela chorava, já sabia quando me viu. Abracei-a também chorando. Ficamos ali sentados e abraçados em um banco que existia em frente à casa, com meu primeiro filho de um ano e meio brincando na grama do quintal. As coisas são assim. Ninguém passa pela vida sem pisar em espinhos. Duro foi sair da Usina. Só me pagariam se saísse da casa que lhes pertenciam. Uma história para ser contada em outra ocasião.


             Duas semanas depois, partimos. No pequeno Chevrolet do Seu Nestor com meus poucos apetrechos partimos. Minha mãe na capital me ofereceu um quartinho. Na estrada com o caminhão sacolejando na estrada de terra, lá na “boleia” ia eu Celia, Jan e seu Nestor. Paramos em uma vendinha para comprar pães e mortadela. Nossas refeições até chegar a minha nova morada. Dei-me ao luxo de comprar um Guaraná para meu filho, pois o dinheiro era curto. A viagem seria longa, mais de nove horas naquela boleia sacolejante.  Jan o meu filho de um ano sorria, sorriso de criança é lindo. É contagiante. Mas eu e Celia com os olhos marejados de lágrimas seguíamos pensando o que a vida nos reservaria. O que será de nós a partir de agora? Lembrei-me do que disse o Lobo Gris aos seus irmãos na Pedra do Conselho quando Mowgly partiu. – “As estrelas desmaiam, concluiu o Lobo Gris de olhos erguidos para o céu. Onde me aninharei amanhã? Porque dora em diante os caminhos são novos”! Mas isto é outra história. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A Maria fumaça e o Vale do Rio Doce, doces lembranças.


A Maria fumaça e o Vale do Rio Doce, doces lembranças.

                    Viajar de trem sempre foi uma das minhas escolhas pessoais, era como se o mundo mudasse de rumo e eu seguia em uma direção escolhida por ele. Hoje não posso mais fazer isso, mas um dia se puder, quero de novo embarcar para uma viagem que pode até ser sem volta. Não vai importar. Minha alegria irá superar tudo, pois estarei fazendo a viagem que sempre fiz e nunca esqueci. É um privilégio uma viagem de trem. São tantas coisas que dificilmente poderíamos descrever todas. Quem viaja se diverte, sonha, vê um mundo diferente. A Maria Fumaça sempre foi um dos meus amores quando jovem. Margeando um rio, com seus apitos estridentes, uma parada em uma pequena estação, alguns saltam outros sobem. O cheiro do trem ninguém esquece. As fagulhas lançadas no ar, as paradas nas caixas d’água para matar a sede da locomotiva. E os guarda-pós? Usei muitos. Não sei por que, todos brancos.

          Muitas vezes alguns funcionários da ferrovia passam despercebidos. A gente na poltrona sonhando não sabe quantos estão trabalhando para que o trem siga seu destino. Ver a estratégia do manobreiro, simplicidade do guarda-chaves alterando o percurso do trem, da destreza do maquinista, do esforço do foguista alimentando a fornalha sempre faminta, do trabalho do pessoal da soca, a fazer os reparos necessários e o do fiscal de linha garantindo a segurança da viagem. É um espetáculo A parte. A locomotiva devagar ou correndo, durante o dia apitando, um som maravilhoso que devia encantar o maquinista que gostava de puxar o cordão do apito. As paradas nas estações, a aglomeração dos que chegavam e os que partiam. Os meninos com suas “coisas” vendendo e gritando – Olha o sanduiche de galinha, olha a manga madura! Doce de leite e doce de abobora quem quer? O apito do chefe do trem, ele devagar saindo da estação, a meninada correndo.

                   À noite, as luzes dos carros de passageiros acesas, a segunda classe, a primeira classe. Um espetáculo ver o condutor do trem, com seus bigodes imensos, seu uniforme impecável, e seu boné bem colocado na cabeça, começando seu périplo em todos os vagões. Uma rotina de anos, seu inconfundível apito para anunciar a partida do trem, e agora ali depois de percorrer os vagões da frente pedia educadamente – Bilhetes! Bilhetes! E todos sorridentes, com ele a mão para ver como ele picotava e perfurava numa manobra de deixar todos os passageiros embasbacados. Eu tinha conhecido todos os tipos de trem. Para mim as que mais gostava era da “Jibóia” enorme, gigante, com varias rodas. As “baldwins” me chamavam a atenção, por ser uma Maria fumaça pequenina. Tão pequena que sua chaminé abarcava todo seu todo.

                 Com era gostoso ficar ali na janela, vendo o trem cortando montanhas, apitando, soltando fumaça, mostrando que ali em seu caminho é ele quem manda. Quem teve o privilégio de viajar em uma Maria fumaça, de primeira ou segunda classe, não esquece nunca. Vai sempre margeando um rio, caudaloso ou não, ali vai ela, seguindo o seu curso natural. Seu destino uma próxima cidade, uma arraial, um sitio, um parada no meio do caminho. O barulho e o cheiro do trem é uma experiência muito viva. Sinto saudades da Maria-fumaça. Da volta da ferradura. Do guarda-pó para nos proteger das fagulhas lançadas pela locomotiva enfurecida. Das paradas na caixa d’água para matar a sede insaciável da Maria-fumaça. Do som inconfundível do apito do condutor que anunciava a partida do trem e depois percorria os vagões de passageiros para perfurar e vender os bilhetes. Do malabarismo dos guarda-freios puxando a corda e pulando de um vagão para o outro com o trem em movimento.

               Uma vez amigo de um foguista, ele me convidou para uma viagem de uma estação a outra. Trecho pequeno, mas foi para mim uma tremenda felicidade. Ver o maquinista olhando a frente, seu apito inconfundível (ele olhava para mim e sorria). O esforço do meu amigo foguista alimentando a fornalha sempre faminta. Difícil imaginar quantos estavam envolvidos para que aquele trem percorresse seu caminho, sem perigos, e chamando a atenção de todos que moravam próximo a linha.

                  Depois, passaram-se os anos e a Maria Fumaças foram trocadas por locomotivas a Diesel. Mesmo assim, minhas viagens nunca deixaram de acontecer. Lembro que com minha família, sempre íamos para passar uns dias em Vitoria, e o trem percorrendo aqueles trechos maravilhosos, as paradas nas estações, a meninada de novo gritando e vendendo frutas, salgados, uma festa. O condutor sorrindo a dizer bem alto “Próxima estação, Aimorés!”. É uma saudade imensa. Foi uma época maravilhosa. O Rio Doce caudaloso, águas límpidas (hoje não é mais) Era também um espetáculo a parte a passagem de trem por outro em alta velocidade.

                 Hoje não tenho mais esta oportunidade de viagem. Anunciam aos quatro ventos um tal de trem bala. Acho que não vou viajar nele. Não vai me deixar ver o rio, as paisagens, a meninada com aquela algazarra na estação. Não será o trem dos meus sonhos. O que foi ficou no passado. Difícil enfrentar a modernidade. Não sei se gosto dela.

            Meus filhos e meus netos não terão oportunidade de viver o que vivi. Não tem mais Maria fumaça. Não tem mais meninos vendendo frutas e salgados. Acho que nem o condutor do trem com seu uniforme impecável e perfurar os bilhetes com maestria não mais existem. É melhor ficar só com as lembranças. Estas sim mostraram uma outro época e a de agora não é para mim. Quem sabe serão para os meus filhos e netos.


"Lá vai o trem com o menino
Lá vai à vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
P’ro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo ar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar, no ar.” 
 (O trenzinho caipira: Heitor Villa Lobos)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Coisas da vida.


Coisas da vida.

                            Cada dia que passa, mais nós vamos pensando no próximo que vai passar. Mas o amanhã é só previsível e o hoje já é uma realidade isto na medida em que o ponteiro do relógio avança e vamos esperando acontecer o que planejamos o que nem sempre dá certo. Complicado não? Eu também achei. Mas não mudei, talvez por achar que assim é o começo e o fim ainda não sei como será. Vejam se entendem com a historieta que conto abaixo. Quando casei, há muitos e muitos anos atrás, lá pelos idos de 1963, me lembrei de um fato interessante.

                          É bom os amigos saberem que não é como contam hoje os articulistas, os fazedores de historia e os artigos escritos de uma forma toda simpática, dentro de um principio de classe média, o que no meu caso não era real. Até a tal de lua de mel não existia. Ela era feita com dois dias de folga conseguidos a custo no trabalho. Não tinha jaqueta preta, não podia comprar os discos da jovem guarda (dinheiro curto), e nem freqüentar o Guarujá, descendo a serra de Santos. Mal tinha uma bicicleta de pneu balão, freqüentemente cheia com meus amigos. Um na garupa, um dirigindo e eu no quadro com uma perna em volta do guidon.
                     
                       Mas vamos lá, casei, foi um dia festivo, com muitos amigos presentes, minha sogra é quem financiou a festa realizada na residência dela. Ficamos ali conversando bebendo um pouco (nunca fui de muita bebida) esperando a noite passar. Iríamos voltar para minha cidade onde iríamos morar às cinco da manhã. A viagem seria de trem, no expresso da manhã. Quando casei, não tinha reserva financeira, não tinha casa própria e os móveis, uma cama, um guarda roupa, uma cristaleira comprei de um amigo que era marceneiro para pagar em 4 vezes. Claro que paguei. Com muito custo consegui um fogão a gás. Na época na cidade onde iria morar eles eram ainda “coisa de rico”. Geladeira? Muitos anos depois. Televisão? Risos. Quanto tempo demorou eu não me lembro.

                           Como o dinheiro estava curto, basta dizer que três dias antes, (do religioso) casamos no civil na minha cidade (minha esposa era menor de idade e sem o aval do pai desaparecido, não quiseram fazer o casamento. Assim fomos à cidade que morava, pois conhecíamos o juiz de paz) e fiz o pagamento assim:

- Meu padrinho, amigo do Juiz pegou 60 cruzeiros emprestado com ele, me emprestou e eu paguei ao mesmo Juiz o valor do casamento, ou seja, 60 cruzeiros. Entenderam? Olhem o Juiz também meu amigo ficou cismado, pois achava que conhecia algumas notas recebidas, mas deixa prá lá. Quando chegamos a minha cidade, (a viagem era curta, apenas duas horas de trem) conversei com um amigo dono de um taxi, para me levar a casa em que iríamos morar, e se ele podia receber no fim do mês. Incrível não? Vocês não viram nada ainda. Quando chegamos a casa (esta casa, também tem uma historia, mas fica para outra vez), lá encontramos alguns amigos a espera. Era sempre assim. Todos me queriam muito bem. Entramos (ainda não conhecia o costume de levar a mulher no colo para atravessar a porta e acho até que nem existia). Minha esposa fez cafezinhos, serviu e nada dos amigos irem embora, lá pelas duas da tarde, despediram e saíram. Olhei para ela, um sorrisinho maroto. E surpresa, bateram na porta. Mais quatro amigos que chegavam. Queriam conversar e parabenizar.

                     Eu cansado e a esposa também, tivemos que ser educados e durante duas horas ali permaneceram. Quando saíram já passava das sete da noite, logo chegou o pároco, alguns casais da igreja que me conheciam. Deus do céu! Ficaram até a meia noite.  Foram embora sorrindo. Que dia. Claro tinha muitos amigos, mas aquilo parecia coisa combinada. Já preparávamos para dormir e eis que surge outros amigos, cujo turno de trabalho terminava às onze horas da noite, também resolveram nos visitar! – tudo isto na noite de núpcias! Incrível não? Agüentei até duas da manhã e infelizmente fui mal educado, mandei embora o padre e os amigos. Na saída, estavam todos ali, na minha porta. Mais de vinte pessoas. Rindo batendo palmas, cantaram (alguém levou um violão). Lá pelas quatro da manhã acho que não agüentavam mais e foram para suas casas me deixando a sós com minha mulher. O cansaço era muito grande e sempre achamos que alguns deles estavam à espreita nas janelas e esperavam o ponto culminante que claro não aconteceu naquele dia.

                     Só mesmo a noite, quando voltei do trabalho pude descansar e ter com minha esposa a lua de mel que não conhecemos no primeiro dia. Sempre de olho na porta para ver se não aparecia ninguém.  É bom ter amigos. Eles fazem falta. Hoje tenho poucos. Muitos que não conheço através desta telinha do computador. Acho que eles me querem bem mesmo sem me conhecer pessoalmente. Não há solidão mais triste do que a do homem sem amizades. A falta de amigos faz com que o mundo pareça deserto.


Hoje lembro com saudade de todos eles. Foram tempos bons. Uma amizade sem interesse. Não sei onde andam, e se ainda estão vivos. Mas valeu tudo que passei junto a eles. Se pudesse voltar no tempo o faria sem pestanejar. Mas o tempo não é mais nada que uma lembrança que se foi.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um cafezinho, por favor!


Um cafezinho, por favor!

                   Há muitos e muitos anos, lá pelos idos de 1959 eu viajava de trem para a cidade de Dom Silvério interior de Minas Gerais. Época que a Estrada de Ferro Leopoldina cortava quase todo o Brasil. Era um promotor de vendas, ou melhor, um reles vendedor de livros. Uma serra montanhosa ligava uma cidade à outra. Em linha reta se fazia a pé em uma hora e meia, mas de trem era cinco horas. Paramos em uma estação. Não ia descer. Os meninos gritavam tentando vender seus pasteizinhos, pão com carne, churrasco, goiaba, manga e tantas guloseimas possível. Na janela vi uma morena de olhos verdes, cabelos negros ondulantes, linda demais. Ofereceu-me cafezinho em um copo de vidro. – Só um real moço! Caramba, era linda demais. Precisava vê-la de corpo inteiro. Desci do trem. Era mestre para subir com ele andando. Ela sorriu para mim. Pensei com meus botões: - Que corpinho lindo! Quinze? Dezesseis? Por aí. – tomei um café, depois outro, brincando disse – Te dou cinco reais por um beijo! – Ela fez beicinho. O trem ia saindo. Dei um breve beijinho no rosto dela e sai correndo. Peguei o trem e pensei que seria o beijo mais lindo que tinha dado. Fui sonhando até a próxima estação.


                    O trem apitou. Encostou-se à plataforma. A garotada gritando – Goiaba, banana manga! Pão com Carne, Pastelzinho, churrasco! Olhei pela janela e lá estava ela de novo. Como? Ela voava? – Cafezinho moço? Ou um beijinho? – Surgiu na janela um garoto forte, alto com uma garrucha na mão. – Beije aqui moço! É de graça! – Nossa Senhora! O que é isto? O trem foi saindo de mansinho. Um tiro ecoou e bateu no vidro da janela do outro lado. Um túnel e uma descida. Mãe de Deus! Salvei-me desta. Um velho ao meu lado explicou que era só atravessar uma garganta, menos de cinco minutos e passava de uma estação a outra. De trem um volta enorme. Aprendi. Nunca mais comprei um beijinho viajando. O pior é que nunca fiz isto! Foi a primeira e única vez em minha vida. Beijinhos? Risos, nunca mais...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

As dificuldades são como a brisa, elas chegam se vão e deixam saudades.


As dificuldades são como a brisa, elas chegam se vão e deixam saudades.

         A cena marcou minha mente e nunca mais esqueci. Seria digna de um filme, mas não foi. Demitido, sem sonhos futuros, em um caminhão Ford antigo, eu Celia e o Jan meu primeiro filho ali na boléia, comendo um pão com mortadela, em uma estrada de terra indo para um futuro que não existia. Jan com um ano sorrindo, olhei para ele e pensei: - Você só vê sua imagem em um lago se a água estiver parada. O que significa? Foi preciso eu olhar para ele para imaginar que a vida não seria tão ruim como prometia. Mas vamos voltar no tempo para entender tudo. Só vivendo é que aprendemos que nada é para sempre, e nem sempre tudo não tem uma razão de ser.

       1965 peão de obra na Usiminas, quase quatro anos na luta em trabalho de turno, boca do forno, anotando, saltando e correndo para entregar em uma locomotiva um ferro gusa derretido na Aciaria e fui surpreendido com minha demissão. Até então achava que iria terminar meus últimos dias como Usineiro. Mas uma tal de Booz Allen Hamilton, uma empresa contratada para reestruturar o efetivo humano não perdoou 2.000 funcionários que tinham sonhos como eu. Era uma época onde não podíamos acreditar em amizades ou será que podíamos? A usina não demitia viva voz. Retirava o cartão da chapeira e você então tremia quando chegava ou ia sair. Chegou a minha hora! Todos sabiam que isto quando acontecia era para procurar o Departamento de Pessoal. Má notícia na certa. Cheguei ao ponto do trabalho, desci do caminhão lonado com mais de cem homens em cima, fui direto para bater o ponto. Em volta muitos vendo quem seriam os felizardos da noite. Quando viram que eu fora escolhido riram e fizeram piadinhas.


                    Levei um choque. Doeu e como doeu. Uma experiência amarga que não desejo a ninguém. Minha vez? O jeito era pegar o caminhão de volta com a turma que saia a meia noite. Celia iria levar um susto. Eu e ela já tínhamos pensando nesta possibilidade. Muitos já haviam sido demitidos, mas achei que eu não iria sair assim de uma hora para outra. Ninguém dos meus amigos de turno veio me consolar. Todos sabiam que o corte era “bravo”. Quem sabe no dia seguinte seria a vez deles. Voltei. Planos na viagem? Não tinha a mínima ideia. Cheguei a casa por volta de uma da manhã. Celia dormia. Tinha que contar para ela. Choramos juntos. Custamos a chegar até ali na Candagolândia. Um bairro da Usiminas. Casas de dois cômodos sem banheiro, telha de amianto, em volta mais quatro casas que usavam de um banheiro e lavatório ao ar livre. Para mim um castelo, pois antes morei em dois cômodos fechados de taboas, em um barracão de uma empreiteira que achamos estar abandonado.

                        Nunca reclamei, pois achava tudo normal. Dois anos de casado, um filho maravilhoso que nos fazia sorrir sempre. O salário pequeno, mas dava para sobreviver comprando na Cooperativa da Usina. O rio próximo me abastecia de peixes. Carne só duas ou três vezes por mês. Não tínhamos geladeira, nenhum eletrodoméstico, um fogão simples de quatro boca a gás comprado com sacrifício e uma poltrona simples azul com cinco prestações paga. Faltava ainda mais cinco. Esperei o dia amanhecer e na minha bicicleta fui até o Departamento de Pessoal. – Senhor, para que possamos pagar sua indenização tem de desocupar a casa. Por favor, devolva a identidade e o cartão de compras da cooperativa. – Mas sem ele como vamos comer? Não tive resposta. Ir para onde? Como tirar tudo da casa se não tinha para onde ir? No bolso menos de vinte reais de hoje. Fui até o centro de Ipatinga, liguei para minha mãe. Ela disse – Venha para cá. Tem um quartinho nos fundos. Você pode ficar lá.

                        Precisava de um caminhão para levar minhas bugigangas. Não tinha como pagar. Um amigo aqui e outro ali e ninguém tinha para me emprestar. Eu sabia que o medo de todos era eu ir e nunca voltar para pagar as contas devidas. – Seu Nonato, tenho cinco prestações pagas das poltronas. Faltam cinco. Ela está novinha. O senhor pode ver e confirmar. Tenho que devolver, mas não daria para pelo menos me devolver duas prestações? Eu perderia só três! – Nada feito. Ele sabia que podia ganhar mais na devolução. Foi comigo em casa buscar. Confiar? Nunca. E agora José o que fazer? Ninguém tinha para me emprestar. Meus amigos chefes Escoteiros desapareceram. Na prateleira arroz e feijão para cinco dias. Sentando na porta da minha casa triste e pesaroso não sabia o que fazer – Seu Osvaldo! Olhei, era o João Bunda. Apelido que todos gostavam de chamá-lo e ele não se incomodava. Era um simples manobrista de vagões na usina. Caladão, uma enorme cicatriz no rosto quem sabe feita por uma faca. Ele pouco falava. Morava perto da minha casa. Mulher e três filhos. Homem simples sem afetação.

                           Olhe, sei que está passando por poucas e boas, quero ajudar. Quanto precisa emprestado? – Olhei João Bunda com lágrimas nos olhos. Tinha ali um amigo que nunca pensei que fosse. Fiz uns cálculos ele saiu e voltou com a quantia pedida. – João, palavra de Escoteiro e perante a Deus que volto para receber minha indenização e pago com juros. – Nem pensar juros. Confio no senhor. Falar o que? No dia seguinte fui embora. Meus amigos Escoteiros ou não que achava do peito não apareceram. João Bunda me ajudou a carregar a mudança. Usiminas Belo Horizonte. João Bunda foi o único que visitei quando retornei para receber minha indenização. Divida paga. Não aceitou um tostão a mais. Hoje seria quem sabe viagem de 3 a 4 horas até Belo Horizonte. Naquela época estrada cheia de curva, sem asfalto, muita poeira, quase oito horas de viagem. Deu fome. Paramos num bar de estrada. Tinha mortadela. Comprei quatrocentas gramas. Oito pães. Quatro grapetes. Sorrisos na boléia, o fordeco comendo a estrada. E a história final? Sobrevivi. O mundo gira e eu girei com ele. Mas nunca mais esqueci aquela boléia, comendo pão com mortadela, Celia me olhando pensando qual seria nosso futuro, Jan sorrindo com a viagem. Sorrisos inocentes de uma criança que sabia que os pais velariam pelo seu futuro.  

    

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Um pouco da minha vida.


Saudades da minha terra!
Um pouco da minha vida.

Oh! Que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Casimiro de Abreu.

                    O tempo passa, e muitas coisas das nossas vidas vão sendo colocadas em uma parte do nosso cérebro, não esquecidas, mas para serem lembradas um dia. Eu sou um homem da terra. De muitas terras. De algumas cidades. Um dia destes li de Paulo Gondim, um poema, do seu lindo Ceará. “Minha terra tão querida, a quem sempre vou amar. Um dia eu deixei, mas voltarei, ao meu lindo Ceará”.

             Ninguém esquece sua terra natal. Sua cidade, seu estado, seus amigos, suas histórias tão queridas. Nasci na minha querida Minas Gerais. Oh! Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais. Nasci em uma cidade perdida no longínquo norte do estado, pequena, sem nada para viver, quem sabe uma ou duas ruas calçadas, uma pracinha, mas eu? Morava a seis quadras mais longe. Casa de taipa, esburacada, rua sem calçamento, esgoto a céu aberto, doenças. Três irmãs foram para o céu ainda com menos de quatro anos. Eu quase fui.

            Dois anos que não lembro a não ser as histórias contadas por meus pais e irmãs. Sobraram duas delas e eu. Meu pai seleiro, família pobre, lá fomos nós para uma fazenda. Não me lembro de nada. Menos de um ano e de novo outra cidade do outro lado das Minas Gerais. Poucas lembranças. Mais três anos e de novo outra e outra até que com seis fincamos o pé por muitos anos em uma maior, bem ao lado do formoso Vale do Rio Doce. Rio Doce! Quantas saudades, quantas travessias, jangadas, comer ingá nas suas margens nas cheias, quantos peixes. Hoje soube que está como o Tietê. Dói-me fundo. Ali praticamente cresci. Fui lobinho, Escoteiro, viajando a pé, de bicicleta vivendo uma vida de aventuras sem pensar no amanhã. Voltei um dia em todas as pequerruchas cidades que vivi. Fiquei tempos na terra onde nasci. Passei ali menos de duas horas. Vi a casa onde comecei minha vida de homem terreno. Nas outras poucas lembranças de uma época que minha memória não arquivou. Não tinham mudado nada na visão dos meus pais. Nesta última foram treze anos, de alegria, felicidades até que um dia a mudança aconteceu.

           Meu pai doente, início da década de sessenta, diabete ainda desconhecida era melhor procurar médicos especialistas. Capital do Estado. Nova vida. Novo emprego. Usina Siderúrgica. Peão no inicio. Interessante. Nunca fomos ricos. Ouve fases, algumas remediados outras? Melhor nem comentar. Estudo? Terceiro ano de ginásio. Eu sou um Iletrado. Nunca fui Doutor. Aprendi muito na Escola da Vida. Não sei como fui convidado para ser o chefão Escoteiro do estado. Comissário Regional. Uma época de viagens. Cidades e mais cidades sendo engolidas pelo escotismo. Amigos e amigos novos sendo conquistados. Quantas histórias, quantas estradas de terra percorridas, quantas coisas ficaram para trás. Mas o tempo não para. Um dia alguém chegou para mim – Queres ser um Administrador de uma fazenda? Putz! Não pensei duas vezes. Celia ao meu lado. Sempre formidável minha linda Célia. Oito mil cabeças. Meu Deus! Que isso? Botas no pé, chapéu de couro, perneira, meu lindo gibão cravejado de brilhantes, um peitoril simples e lá estava eu vaquejando aqui e ali pelas largas e capoeiras da vida.

               Quantas aventuras. Viagens no Rio das Velhas, Sucuri de quinze metros, enfrentar a correnteza do São Francisco, enfrentar pistoleiros morrendo de medo. Pescarias, criação a parte, porcos, galinhas, tratores, um D-12 da Caterpillar, enorme me hipnotizava. Adora andar com ele prá e prá cá. Comprei uma vacada de um fazendeiro em Barra do Guaçuí, duzentas cabeças. 150 quilômetros de distância. Achei melhor trazer por terra. Para mostrar ao Diretor que eu era econômico. Pobre “bunda”. Seis dias ida e volta. A cavalo. Levando um gado fácil, mas trabalhoso. Cinco anos maravilhosos. Filhos crescendo. Precisavam de bons colégios. São Paulo. Meu destino final. Empregado. Luta constante. Osasco era minha morada, ou melhor, ainda é. A luta dizem que é renhida, difícil. Sempre ao olhar minha vida lembro-me do poema de Gonçalves Dias. - Juca-Pirama. “Sou bravo, sou forte, sou filho do norte”. Andei longes terras, lidei cruas guerras, vaguei pelas serras dos vis Aimorés...

               Ei, calma! Não sou bravo e nem forte. Mas o tempo vai passando. Os anos não perdoam. Não dá mais para trabalhar. Uma vil aposentadoria. Mas feliz. Muito feliz. Quatro filhos criados e casados. Oito netos, uma linda árvore genealógica dando prosseguimento as lides traçadas por milhares de anos no espaço. Rodei meio Brasil. Pisei em outras terras. Conheci outros rumos, outros destinos. Mudei demais. Não sei se fiz bem. Não vejo como traçar o meu destino de outra forma. Tenho dúvidas não arrependimento. Quem sabe nem todas as trilhas que escolhi deram em boas estradas. Um dia destes irei por aí. Sei aonde vou. Não posso levar mais minha barraca, minha mochila e meu chapéu de três bicos. Lá dizem tem lindos locais de acampamentos. Córregos dançantes de águas tão claras que dá para ver o passado e o futuro. Onde as florestas são verdes e as flores as mais lindas do universo.

               Sempre é bom lembrar o caminho. Sempre é bom ver o que se foi o que se fez. Nunca fui rico. Morei em casa de taipas. Morei em tantos lugares que de vez em quando perco a memoria onde estou. Meu carrinho está encostado. A vista já não é a mesma. As pernas obedecem reclamando. Obriga-me a forçar meus passos por aí. Melhor assim, pois sempre fiz isto em minha vida. Viajei meio mundo no lombo de uma bicicleta. Com meu Vulcabrás conquistei montes e vales desconhecidos. Adoro o que fiz. Adoro o que sou. Não tenho duvidas do que serei.

                 Eu gosto de São Paulo. Fiz dele minha morada por mais de 38 anos. Não sei se fiz aqui muito amigos. Os mais chegados já partiram para começarem tudo de novo com os novos tempos. Eu ainda não fui. Deus me reservou outro destino. Seja ele o que for estarei pronto a enfrentar. Mas sabem, não tenho medo, não tenho receios. O que tem de ser será. Não podemos fugir do nosso destino.

Uma vida eu vivi. 1947 ficou na memoria quando comecei. Os tempos são outros, minha vez chegou ao fim. Posso ter tido tudo e posso não ter tido nada. Hoje tirei o dia para lembrar. Hoje? Risos. Agora são todos os dias. Mas quer saber? Tenho orgulho do que fui, pois sempre guardei a Lei a Promessa e o Escotismo no meu coração. Lá é sua morada é para sempre!