EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO
Celia, 49 anos de felicidade. Não sei viver sem ela

domingo, 24 de maio de 2015

Amor de verdade.


Hora de dormir, amanhã é outro dia.
Amor de verdade.

                         Li hoje este pequeno artigo e me interessou. - Um senhor de idade chegou num consultório médico, para fazer um curativo em sua mão onde havia um profundo corte. E muito apressado pediu urgência no atendimento, pois tinha um compromisso. O médico que o atendia, curioso perguntou o que tinha de tão urgente para fazer. O simpático velhinho lhe disse que todas as manhãs ia visitar sua esposa que estava em um abrigo para idosos, com mal de Alzheimer muito avançado. O médico muito preocupado com o atraso do atendimento disse: - Então hoje ela ficará muito preocupada com sua demora? No que o senhor respondeu: - Não, ela já não sabe quem eu sou. Há quase cinco anos que não me reconhece mais. O médico então questionou: - Mas então para que tanta pressa, e necessidade em estar com ela todas as manhãs, se ela já não o reconhece mais? O velhinho então deu um sorriso e batendo de leve no ombro do médico respondeu: - Ela não sabe quem eu sou. .Mas eu sei muito bem quem ela é! Portanto muito mais do que dar coisas aos outros, é preciso dar-se a si mesmo, sua dedicação, seu tempo, seu coração.

                      Eu gosto de ler histórias assim. Na velhice cada um tem a sua história para contar e todas elas são lições de vida. Olho para dentro de mim e vejo uma vida que valeu a pena. Dizem que cada casal de velhos é um só, não existem dois iguais, mas devem ter aos milhares. Criamos eu e Célia quatro filhos. Hoje adultos casados, todos também com seus filhos. A casa ficou vazia. Eu e Célia somente. Não existem mais as crianças correndo, brincando pedindo um doce para a mamãe ou a vovó.  Sem perceber criamos uma química própria entre nós dois para deixar isto no passado. Tem hora que sentimos falta de todos. Dos gritos, choros, sorrisos e pedidos incríveis que nos fazem a criançada. Hoje passamos junto vinte e quatro horas a cada dia um vivendo ao lado do outro. Eu tenho a felicidade em dizer que ela é a melhor mulher do mundo, e ela sorri dizendo que sem mim não seria ninguém. Não saímos por aí de mão dadas, beijinhos nas paradas de ônibus, nas ruas que percorremos. Não nos chamamos de amor, te amo, sou teu e tu és minha. Mas eu e ela sabemos que tudo isto está em nossos corações. Não precisamos dizer, está dentro de nós. Existe uma alegria enorme quando estamos juntos e é paradoxal estamos sim sempre juntos a toda hora.

                    Temos nosso momento de nostalgia, mas logo vem o da alegria quando um sorri para o outro. Conversamos sempre, trocamos ideias, mas não discutimos mais, não precisamos, sabemos o que cada um pensa e sabemos que o amor vale mais que uma discussão inútil. Tudo que poderia levar a uma desilusão do outro com o outro ficou no passado, isto é se o passado foi assim, pois o nosso não foi. Aprendemos a respeitar individualidades, afinal são vinte e quatro horas juntos todos os dias, semanas, meses anos. Somos sinceros um com o outro. Não escondemos nada. Falamos de alegria, falamos de vontades de sonhos afinal não é porque somos velhos que deixamos de sonhar. Tem muitos e muitos anos que nenhum de nós levanta a voz para o outro. Aprendemos que um sorriso vale mais que uma discussão inútil. Aprendemos que a vida é muito mais do que pensávamos antes. Sabemos que um dia um de nós vai partir e mesmo sabendo que a tristeza será demais, aceitamos. Afinal ninguém vive para sempre. Cada ano eu me pergunto: - Até quando meu Deus? Até quando estarei ao lado dela? Sei que será por pouco tempo qualquer partida, mas sei que quem ficar por último vai sofrer muito.

                    Somos um casal de velhinhos. Alguns dizem que somos simpáticos, nos admiram, conversam, mas não entram na nossa vida que pertence a nós. Ela é nossa e não dá para dividir. Graças a Deus mesmo com meus setenta e quatro anos e ela com seus sessenta e oito ainda estamos lúcidos. Sabemos ainda sorrir um para o outro. Sabemos entender um ao outro. Nos amamos como dois amantes no começo da vida. Sabemos até onde ir para não machucar. Deus até hoje nos deu uma vida onde cada um pode ajudar o outro. Sei que a vida não é só isto, tem muito mais. Passamos juntos poucas e boas. Às vezes caímos juntos e juntos levantamos. Temos um único propósito fazer o outro feliz. Esta é a química que nos leva a felicidade todas as horas dos dias. Ainda não me considero um exemplo de vida. O passado vem de vez em quando me lembrar onde devo melhorar. Ela também faz o mesmo. Os poetas dizem que a vida nos dá lições que só se dão uma vez. Isto basta para aprender e não cair mais.

                       A maioria das pessoas só aprende as lições da vida, depois que a mão dura do destino lhe toca no ombro. É hora de recomeçar. Somos sim um casal de velhinhos que moram sozinhos em uma casinha pequena onde reina a felicidade. De vez em quando eu choro e ela também. Choramos juntos agradecendo a Deus por ter nos dado no fim da vida um ao outro. Não preciso dizer quanto a amo, e ela também. A voz que dita isto está no coração, ele sabe o que quer e diz o que tem de dizer. Não somos exemplos para ninguém, cada vida é uma vida, cada destino é um destino. Mas eu rezo e peço a Deus que possa dar a todos os casais de velhinhos uma vida melhor no fim de seus dias. Não a riqueza, mas a compreensão, o amor e o respeito. Ninguém precisa de riqueza no fim da vida nem de viagens e compras impossíveis. Cada um é cada um, e eu desejo mesmo que todos os casais na velhice que ficam sozinhos, que tenham a felicidade que eu e minha Célia temos.

Desculpe nosso pequeno desabado, o intuito é levar a alegria aos que já chegaram a nossa idade ou estão chegando. Eu e Celia não escondemos que não somos os casais de velhos perfeitos. Nosso exemplo pode não servir para outros. O que fizemos o que fazemos e o que ainda temos de fazer fica determinado no muro da eternidade. Eu e ela se Deus assim o permitir iremos viver juntos para sempre aqui ou lá na estrela brilhante do céu onde é nossa morada e juntos ficaremos por toda a nossa existência!


Boa noite meus amigos, uma linda segunda que se aproxima. Eu e Célia o grande amor da minha vida desejamos a todos uma semana cheia de felicidade. Eu sei que eu e ela estaremos sempre felizes, aconteça o que acontecer! Ninguém precisa de riqueza para ser feliz basta amar e amar muito todos os dias na terra ou no céu. Durmam com Deus!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Zezé da Maria, um amigo que nunca esqueci.


Hora de dormir, amanhã um alegre despertar...
Zezé da Maria, um amigo que nunca esqueci.

                       Muitos o chamavam de Seu Manezinho, mas ele me disse que era Zezé. Da Maria porque era sua mulher. A roça é assim. Tonhão? Da Santinha. Adelaide? Do Zózimo vaqueiro. Totonho? Vaqueiro. Totonho? Da Linda de Rio Feliz. Apelido mesmo quase nenhum. Lá eles não gostam disto claro salvo um ou outro como o Bastião Cocar. O danado não queria trabalhar e só vivia atrás de pássaros e bichos para comer. Um preguiçoso. Muitas vezes o chamei para uma empreitada e ele dizia – “Bigado” Sô Osvardo. Esta semana num dá! Zezé da Maria não era assim. Um trabalhador. De sol a sol. Idade indefinida alguém me disse que tinha mais de oitenta. Uma parte da cerca da Larguinha caiu com as chuvas. Mais de trezentos metros. Ele aceitou consertar. - Seu Zezé, melhor chamar mais um. Não vai ser fácil. Ele me olhou de soslaio, cuspiu um naco de fumo no chão me deu as costas e se foi. Sinal que o ofendi. De manhã lá estava trabalhando. Em cinco dias terminou. Paguei com gosto.

                      Foram cinco anos que eu fiquei como gerente de uma fazenda de cria recria e engorda. Quase dez mil cabeças de gado. Uma vida maravilhosa. Para mim um oásis de felicidades. Como aprendi ali com os moradores do local. Gente pobre, sem estudo, mas cada um com coração de ouro. E meus filhos? Para eles nunca ouve nada igual. A gente podia confiar. Dona Maria me contava muitas coisas de Zezé da Maria. Sempre pitando seu cigarrinho de palha. Lembro quando Sarduá um vaqueiro que admiti e por sinal ninguém queria bebeu tudo que tinha direito. Avisaram-me que ele estava correndo atrás da mulher do Coluna, meeiro do Seu Gerardo Véio. Bêbado que nem uma égua. Em quinze minutos a C-10 me levou até lá. Coluna desmaiado sangrava. Sarduá vermelho gritava que queria a mulher do Coluna. Zezé da Maria estava de braços abertos, dizendo – Se entrar na casa do Coluna te quebro no meio! Desci do carro correndo. – Carma seu Osvardo ele disse. Sarduá se passar daqui é um homi morto. Zezé da Maria tinha mais de oitenta anos. Ele mesmo não sabia sua idade real. Seus braços e pernas todos marcados de mordidas de cobras e escorpião. Ele ria quando contava. Pegava Cascavel com a mão, segurava no rabo e girava sobre a cabeça. A cobra era jogada tonta em um tronco de árvore e quase não conseguia rastejar.

                  Fiquei lá cinco anos. Ele adorava cuidar do jardim e da horta da Celia. Era bamba para matar um capado. Sabia destrinchar e fazia linguiças que até hoje nunca vi igual. Eu levantava as cinco da matina para ir trabalhar com a vacada parida na Curralama e ele já estava de enxada na mão trabalhando. Precisavam ver o jardim da Célia. E a horta? Cada mamão que nem vou contar. Goiabas enormes, pé de couve com mais de quarenta centímetros. Risos. Tomates que pareciam laranja Bahia. Melhor parar, vão achar que estou blefando. Nunca o vi doente. Nunca nem a Dona Maria. Em qualquer hora do dia lá estava ele com uma enxada na mão. Nunca o vi reclamar, dizer qualquer coisa que pudesse ofender alguém. Simples, honesto, trabalhador costumava ficar sentado na varanda da minha casa, e ali contava histórias e histórias e o tempo custava a passar. Eu adorava. Prestava uma atenção enorme. Muitas vezes eu e Celia levávamos os filhos dormindo para seus quartos e voltávamos para ouvir mais. Todos gostavam dele. Sai da fazenda e ele que nunca vi chorar, pela primeira vez deixou uma lágrima correr quando disse adeus. Não disse nada. Na porteira da fazenda lá estavam os amigos que fiz alguns chorando e outros acenando. Danada de saudade que eu sinto até hoje. Nunca mais vi Zezé da Maria. Um dia um amigo de Pirapora, aquela que é dona do Velho Chico, me escreveu contando as novidades. – Seu Zezé da Maria morreu. Dona Maria também. Os dois foram encontrados abraçados no barraco onde moravam. Barraco? Uma tapera de barro coberta com folha de coqueiro.

Hoje não sei por que me lembrei dele. Lembrei-me da fazenda. Tempos bons. Um dos melhores da minha vida. Tantas histórias eu vivi. Melhor é ir dormir. Sono, muito sono.


Boa noite meus amigos amigas. Durmam bem! 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Um cafezinho por favor!


Um cafezinho, por favor!

                        Final da década de cinquenta. Dezenove anos. Desempregado. Precisava trabalhar. Consegui um emprego. Não sabia onde estava me metendo. Queria trabalhar e outros queriam me matar. Isto mesmo. Apontador de horas na Techint. Uma empresa de Engenharia e Construção. Renovando e asfaltando a Rio Bahia. Um mês de trabalho. Ninguém me avisou nada. Horas pagas erroneamente o apontador era o culpado. Serviço do Pessoal inocente. Antes de mim dois foram para o hospital e quatro sumiram para nunca mais voltar. Todos me olhavam de esguelha. Escoteiro que era achei que me achavam interessante. Putz!  Sai pagamento. Eu recebi o meu. Você podia pegar tudo e por no bolso. Não havia roubos. O acampamento nosso era próximo a Alpercatas. O dia amanheceu e eu de pé para iniciar o trabalho. Uns oito ali na porta do alojamento me esperando – Mocinho! Tá faltando dinheiro! – No meu também! Um por um foram reclamando. O Encarregado me falou baixinho – Corra o mais que puder e se esconda. Se não conseguir é um homem morto. Era bom nisto. Não me pegaram. Corri até Alpercata e lá peguei carona para minha cidade. Juntei-me aos quatro que nunca mais voltaram para juntar sua tralha nem para dar baixa na carteira profissional. Risos.

                       Seis meses depois viajava de trem para Dom Silvério interior de Minas. Época que a Estrada de Ferro Leopoldina cortava quase todo o Brasil. Agora era promotor de vendas. Melhor, um reles vendedor de livros. Uma serra ligava uma cidade à outra. Em linha reta se fazia a pé em uma hora e meia, mas de trem era três horas. Paramos em uma estação. Não ia descer. Na janela uma morena de olhos verdes e cabelos negros ondulantes me ofereceu cafezinho em um copo de vidro. – Só um real moço! Caramba, era linda demais. Precisava ver de corpo inteiro. Desci do trem. Era mestre para subir com ele andando. Ela sorriu para mim. Que corpinho lindo! Quinze? Dezesseis? Por aí. – tomei um café, depois outro, brincando disse – Te dou cinco reais por um beijo! – Ela fez beicinho. O trem ia saindo. Dei um breve beijinho no rosto dela e sai correndo. Peguei o trem e pensei que seria o beijo mais lindo que tinha dado. Fui sonhando até a próxima estação.


                       O trem apitou. Encostou-se à plataforma. A garotada gritando – Goiaba, banana manga! Pão com Carne, Pastelzinho, churrasco! Olhei pela janela e lá estava ela de novo. Como? Ela voava? – Cafezinho moço? Ou um beijinho? – Surgiu na janela um garoto forte, alto com uma garrucha na mão. – Beije aqui moço! É de graça! – Nossa Senhora! O que é isto? O trem foi saindo de mansinho. Um tiro ecoou e bateu no vidro da janela do outro lado. Um túnel e uma descida. Mãe de Deus! Salvei-me desta. Um velho ao meu lado explicou que era só atravessar uma garganta, menos de cinco minutos e passava de uma estação a outra. De trem um volta enorme. Aprendi. Nunca mais comprei um beijinho viajando. O pior é que nunca fiz isto! Foi a primeira e única vez em minha vida. Única? Risos. Não sei não...

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A casinha pequenina branca como a lua.


A casinha pequenina branca como a lua.

                      Quando crescemos costumamos rir de nós mesmos dos tempos de criança. Quantas coisas fizemos, traquinagens mil e a cada ano vamos olhando o mundo de outra forma. Algumas marcam para sempre outras se perdem na memória do tempo. Hoje quando vemos a meninada fazendo das suas sempre preocupamos sem pensar que um dia fizemos assim também. E os sonhos juvenis? Eram lindos. O primeiro amor? Dizíamos ser único. Hoje me veio à lembrança de quando a vi pela primeira vez. Eu entrando nos meus dezesseis anos ela nos treze anos. Foi um namoro de mais de um ano sem um toque, sem uma fala sem sentir a respiração do outro. Incrível não? Outra época.

                  Morava em um barracão em forma de L. Na parte mais curta era meu quarto. Minhas duas irmãs e meus pais moravam na outra parte do barraco. Não tínhamos água encanada. Uma cisterna com uma bomba manual. Todos deveriam antes de tomar banho e quando sair de casa, dar duzentas “bombadas”. A caixa não enchia, mas se mantinha pela metade. Era um bairro afastado da cidade. Novo ainda. Em frente ao nosso barracão uma pequena construção. Acompanhei parte por parte como se fosse minha construção. Minha morada. Em meus sonhos nós tínhamos casado. Sonhava em ter minha casinha, pintada de branco, cercas de madeira também caiada de branco, um portãozinho simples que deveria ranger quando eu chegasse a casa. Era um aviso. Pensava em vê-la abrir a porta, dar aquele sorriso e dissesse – Oi meu amor correu tudo bem com você? Filhos? Muitos!

                        Tudo sonho. Meu trabalho era ajudar meu pai. Mas meu sonho me mostrava como um grande técnico em consertos de radio. Fazia um curso. Um sonho que durou por muito tempo. Quando um dia falei com ela quando senti seus lábios próximos aos meus, quando senti a maciez da sua mão mais e mais sonhava com a casinha caiada de branco com rosas vermelhas na janela. Quatro anos depois nos casamos. A casinha onde fomos morar não era caiada de branco. Era verde, dois cômodos, um quarto e uma cozinha que servia de sala. Banheiros no fundo do quintal. Ela com seus dezesseis anos e eu com meus vinte e um. Acredito termos vividos os momentos mais felizes de nossas vidas. Nunca moramos em uma casinha com cercas e portão caiados de branco. Algumas tínhamos rosas, violetas e bromélias, mas nunca brancas.


                    O tempo passou. Moramos em muitas moradas. Em todas elas fomos felizes. Nunca pintei nenhuma delas de branco. O sonho de passado ficou só na lembrança. Quando parti da minha cidade, a que estava sendo construída e nos meus sonhos era minha, não foi terminada. Soube que os noivos terminaram. Um casamento que não deu certo. Se ela está lá hoje não sei. Mas ainda nos meus sonhos a vejo pintada de branco, com um belo jardim florido e os meus quatro queridos filhos brincando com seus velocípedes, com suas bolinhas de gude e eu e ela na varandinha, a olhar com amor a felicidade que permanece até hoje. Interessante, nestes sonhos ainda não crescemos. Ainda somos os saudosos adolescentes de outrora. Sonhos que aconteceram. De outra forma. Ainda bem que ela nunca me abandonou e se existir a frase – Foram felizes para sempre – Este sou eu e ela. Graças ao bom Deus!

sábado, 18 de abril de 2015

Onde anda o Zé Neguinho?


Onde anda o Zé Neguinho?

                  Ah o tempo! A gente não percebe e quando percebe ele deu uma volta ou milhões de voltas no mundo só para nos trazer as lembranças de um tempo que já se foi. Zé Neguinho nunca foi Escoteiro. Deveria ter sido, mas seu destino estava escrito de outra maneira. Queira ou não fomos amigos. Amigos que se respeitavam. Brigamos muito, de tapa, de soco, mas de arma branca nunca. Eu e ele sabíamos que nenhum de nós dois era melhor que o outro. Acho que a primeira vez que brigamos eu estava com oito anos e ele por aí também. As brigas foram frequentes pelo menos uma a cada dois meses. Nunca envolvi meus amigos Escoteiros em nossas brigas. Mas hoje fico pensando: - Porque brigamos tanto? Não havia ódio, rancores, quantas vezes cansávamos de tanto brigar, ficávamos sentados olhando um para o outro dando belas gargalhadas?

                O tempo passou. Acho há última vez que nos vimos foi em 1966 ou 1967 não me lembro de bem. Faz tempo não? Eu não lembrava mais dele e tenho certeza que ele também não mais se lembrava de mim. Eu viajava em um trem da Leopoldina de Caratinga para Ponte Nova. Lá ia pegar outro trem até Dom Silvério. Meu destino era Barra longa a convite de um Grupo Escoteiro que estava começando. Era Comissário Regional em Minas Gerais e sempre fazia estas viagens pelo interior de Minas. Eu cochilava quando o trem parou em uma estação. Olhei pela janela e vi lá fora dezenas de soldados armados correndo para todo lado. Cercaram o trem. Ouvi alguém gritando alto: - Zé Neguinho! Quem fala é o Capitão Barbosinha.  Você sabe quem sou eu.  Sei que está aí neste vagão. Desça com as mãos para cima. O trem está cercado pela policia! Olhei de lado. Era ele. Cresceu, ficou forte, muito forte, o cabelo grande sempre amarrado em um rabo de cavalo. Ele me viu. Deu uma gargalhada – Vado Escoteiro? O Valente da porrada? É você? Era chamado por ele assim. Levantei e dei nele um forte abraço.

                      O Delegado gritou de novo – Vamos evitar tiros sem necessidade e passageiros feridos Zé. Desça logo – Ele gritou novamente – Me dá dez minutos delegado e vou descer desarmado e sem reagir, eu prometo. Sentado ao meu lado um senhor de idade. – Ele educadamente gritou no ouvido do pobre coitado. - Suma! O sujeito saiu chispado. Ele se assentou ao meu lado. Ficamos estes dez minutos lembrando-se do nosso passado. A gente dava belas gargalhadas. Lá fora o delegado impaciente. Nunca na vida contei “causos” do passado sob a mira de fuzis. Lembra-se da descida do Bairro do Pastoril? Eu lembrava. Uma turma querendo me dar uma surra. Ele chegou com um porrete na mão. Desceu a burduna na turma e gritou - Bateu nele bateu em mim! Só eu posso dar porrada nele! Ele se levantou e me deu outro abraço, apertado. Chegou a doer. Vi que seus olhos encheram-se de lágrimas. Eu também chorei escondido. Queira ou não tinha por ele uma grande admiração. – Adeus meu amigo. Acho que nunca mais vamos nos ver! Desceu do trem e vi dezenas de policiais apontando armas para ele. Alguém colocou uma algema e ele sorriu. Na plataforma me deu um último adeus usando a cabeça e sorrindo para o delegado!


Não fiquei sabendo dos seus crimes ou roubos. Não havia jornal na minha cidade para informar. Mas Zé Neguinho me marcou muito. Não foi escoteiro. Deveria ter sido. Nunca o esqueci. De vez em quando procuro aqui na internet se vejo alguma noticia dele. Deve ter morrido. Se fosse hoje quem sabe eu poderia ter descido e conversado com o Delegado. Quem sabe poderia ter ajudado. Não o fiz. Será que resolveria? O destino não se mede pelas ações, mas sim pelo que se fez ou faz. Espero que ele tenha conhecido a felicidade. Seu sorriso sempre foi contagiante e dizem que quem sabe dar um lindo sorriso também é feliz.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Hora de dormir, amanhã é outro dia... Viver!



Hora de dormir, amanhã é outro dia...
Viver!

                     Frequentemente me perguntam quantos anos tenho. Mas isso que importa? Tenho a idade que quero ter e sinto. A idade em que posso gritar sem medo do que possa pensar. Fazer o que desejo, sem medo do fracasso ou do desconhecido. Tenho a experiência dos anos vividos e a força da convicção dos meus desejos. Que importa quantos anos tenho! Não quero pensar nisso… Uns dizem que já sou velho e outros que estou no apogeu. Mas não é a idade que tenho, nem o que dizem as pessoas, mas o que meu coração sente e o meu cérebro diz.

                    Tenho os anos necessários para gritar o que penso, para fazer o que quero, para reconhecer velhos erros, retificar caminhos e aferrolhar êxitos. Agora, não têm mais porque dizer: És muito jovem… não conseguirás. Tenho a idade em que as coisas se olham com mais calma, mas com o interesse de continuar crescendo. Tenho os anos em que os sonhos se começam a acariciar com os dedos e as ilusões se convertem em esperança. Tenho os anos em que o amor, às vezes é uma chama louca desejosa de consumir-se no fogo de uma paixão desejada. Outras, um remanso de paz como a praia ao entardecer. Quantos anos eu tenho? Não necessito dizer um número, pois, meus anseios alcançados, os triunfos conseguidos, as lágrimas que pelo caminho eu derramei ao ver as ilusões desfeitas… Valem muito mais do que isso.

                     Que importa se cumpro vinte, quarenta, sessenta ou setenta! O que importa é a idade que sinto. Tenho os anos que necessito para viver livre e sem medos. Para seguir sem temor pela vereda, pois levo comigo a experiência adquirida e a força de meus desejos. Quantos anos eu tenho? Isso a quem importa? Tenho os anos necessários para perder o medo e fazer o que quero e sinto.


Boa noite meus amigos e amigas, um sono leve delicioso e um despertar com muita paz e amor no coração.

domingo, 5 de abril de 2015

Como vivíamos antes de 1945?



Como vivíamos antes de 1945?

                    Esta é uma crônica que li a tempos na internet. Achei interessante. Apesar de que em vez de 1945 eu diria que boa parte poderia ir até 1955. Eu vivi muito disto, uma época diferente, gostosa, simples, sem afetação e sem medo. Sem contar o sem dinheiro. Bem deixa o cronista falar mais sobre a época e que época! Linda demais.

                   - Eis uma pergunta interessante Muitos jovens ao ouvirem esta crônica vão argumentar: -  “Ora, vim da mesma maneira que viveram nossos antepassados”. Será mesmo? Tudo bem, o raciocínio está certo. Entretanto vejamos como era a existência antes dos inúmeros eventos que surgiram nestes 70 anos e sem as mordomias científicas de hoje. Nós nascemos antes da televisão, antes da penicilina, da vacina Sabin, da comida congelada, da fralda descartável, do Xerox, do plástico, das lentes de contato e da pílula. Nós nascemos antes do radar, do cartão de crédito, fissão de átomos, raio lazer e canetas esferográficas. Antes da máquina de lavar pratos, cobertores elétricos e ar condicionado.

Nós nascemos antes dos direitos humanos, da mulher que trabalha fora de casa, da terapia de grupo, dos SPAS e dos Flats. Nós nunca tínhamos ouvido falar em vídeo cassete, computadores, vídeo games, “danoninhos” e rapazes de brinco e tatuados. Nós nascemos antes dos antibióticos, dos transplantes de coração e do Viagra. Todavia, mesmo sem este remédio a população decuplicou. Era uma época de famílias numerosas, oito a doze filhos... As moradas só possuíam um banheiro e é fácil de imaginar a fila de espera pela manhã. Casávamo-nos primeiro e só depois morávamos juntos. O casamento não era descartável. Os casais viviam junto durante muitos anos e acreditem, com os mesmos parceiros!

Gente estranha não? Sexo era tabu. Motel? Tornar-se-ia apelido pejorativo de Hotel. Éramos tão inocentes que acreditávamos na existência de Papai Noel... E que a cegonha era mãe de todos os bebês. Nos nossos dias fumavam-se cigarros livremente. Erva era usada para fazer chá, coca era refrigerante, pó era sujeira, Biquíni era uma ilha do Pacífico e sacanagem era palavrão. Embalo era como se fazia para crianças ir dormir, Lambada era chicotada. Fio dental servia para higiene bucal e malhar era coisa de ferreiro. Nós fomos à última geração tão boba, a ponto de que se precisava de um marido para ter um bebê. Além disto, éramos tão ingênuos que cedíamos lugar para uma senhora sentar na condução, abríamos portas para os mais velhos e pagávamos a despesa quando saíamos com a namorada.

A geração de hoje, talvez olhe para nós com cara de espanto, tentando saber como sobrevivíamos com tão poucos recursos e manias estranhas e esquisitas... Bem, nós nos contentávamos com o que tínhamos. Tínhamos o bonde e as praias despoluídas. Quando não era possível ir à Miami, fazíamos passeios à Ilha de Paquetá, Petrópolis, Santos ou Guarujá. Tínhamos as brincadeiras de rua, os bailes de formatura, as novelas da Rádio Nacional. Curtíamos o delicioso namoro no portão, com todo respeito. E as favelas eram apenas temas de belas músicas. Também fazíamos passeios ao Joá, e ao Pico do Jaraguá ou na Barra que era então um grande areal. Existiam muitos terrenos baldios, onde a garotada se divertia e jogava pelada. E o mais importante, andávamos pelas ruas sem medo de assalto ou sequestro.


Parece muito pouco, quase nada comparado com a trepidante época atual. Mas éramos felizes, inocentes, românticos e sem a terrível competição de hoje. Não é de espantar que estejamos hoje confusos e haja tamanha lacuna entre as gerações.
Mas nós vivíamos! Sim, nós vivíamos e continuaremos a viver, apesar das próximas invenções. Henrique Nigri/autor.